
Imagem feita com IA
Numa tarde sufocante na região de Gabú, na Guiné-Bissau, um imã sintoniza o seu transístor alimentado a pilhas na rádio Gandal FM. O ruído estático cede lugar à cadência calorosa do radialista que sumariza as principais notícias do dia. A notícia de abertura assinala que as mortes nas estradas preocupam a federação dos motoristas da Guiné-Bissau. Refere também que um incêndio voltou a atingir a vedação do Campo Pansau Na Isna, reduto do FC Tombali. Assinala a degradação do património histórico: a casa de nascimento de Amílcar Cabral em Bafatá está sem fornecimento de energia elétrica.
Num país mais a norte, um técnico de uma ONGD navega pelo Pocket Casts, um dos muitos aplicativos de podcasts para Android, e escuta um episódio do programa “Na Terra dos Cacos”, do jornal O Público, protagonizado pelo jornalista António Rodrigues e o sociólogo Elísio Macamo.
Duas realidades díspares, porém, um mesmo meio, a rádio. Hoje multiforme através da transmissão por meio de ondas de rádio, ondas eletromagnéticas de frequência entre 3 hertz (Hz) e 300 giga-hertz (GHz), e outra pela internet, quer através de plataformas de podcast, quer via transmissão no Facebook ou no Youtube, como acontece com as rádios-tv comunitárias na Guiné-Bissau.
Proclamado em 2011 pela UNESCO e aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas (A/RES/67/124) em 2012, o Dia Mundial da Rádio, 13 de fevereiro, marca a data em que a Rádio das Nações Unidas foi criada, em 1946.
Juntos vamos garantir que a IA sirva ao público e não o contrário. Vamos garantir que o rádio continue a informar com integridade, a conectar com empatia e a falar com uma voz humana.
Khaled El-Enany, Diretor-Geral da UNESCO – Mensagem do Dia Mundial da Rádio
A rádio é um meio poderoso para celebrar a humanidade em toda a sua diversidade e constitui uma plataforma para o discurso democrático. A nível global, a rádio continua a ser o meio de comunicação mais amplamente consumido. Esta capacidade única de alcançar o público mais vasto significa que a rádio é capaz de moldar a experiência de diversidade de uma sociedade, constituindo-se como uma arena para que todas as vozes se possam expressar, ser representadas e ouvidas. As estações de rádio devem servir comunidades diversas, oferecendo uma grande variedade de programas, pontos de vista e conteúdos, e refletir a diversidade do público nas suas organizações e operações.
A rádio é um meio de comunicação de baixo custo, especialmente adequado para alcançar comunidades remotas e pessoas vulneráveis, oferecendo uma plataforma para intervir no debate público, independentemente do nível de educação das pessoas. Também desempenha um papel crucial na comunicação de emergência e na ajuda em caso de catástrofes. A rádio está numa posição única para reunir as comunidades e promover um diálogo positivo para a mudança. Ao ouvir o seu público e responder às suas necessidades, os serviços de rádio proporcionam a diversidade de pontos de vista e vozes necessária para enfrentar os desafios que todos enfrentamos – lemos na página das Nações Unidas sobre a efeméride[1].
História da Rádio
A National Geographic Portuguesa conta que foi Heinrich Hertz quem descobriu as ondas de rádio, em 1886. Teríamos, contudo, de esperar uma década para dispor de um equipamento que transmitisse mensagens. Guglielmo Marconi, inventor italiano, em 1895, conseguiu enviar uma mensagem sem necessidade de fios a um trabalhador que se encontrava a um quilómetro de distância. Seis anos mais tarde já transmitia mensagens para além do oceano Atlântico com os EUA[2]. O século XX exponenciou esta nova tecnologia. Em 1920, foi lançado no mercado o primeiro aparelho de rádio, um exemplar “tetravô” do pequeno transístor a pilhas usado pelo imã em Gabu em 2026.
A internetificação da rádio e a inteligência artificial
As Nações Unidas, ao assinalar a efeméride, referem que “a rádio se encontra num momento de transformação em que a IA (inteligência artificial) pode ajudar a fortalecer a sua missão principal: informar, educar e entreter. Ao automatizar tarefas rotineiras, como a programação, a gravação de voz, as atualizações meteorológicas e desportivas e os fluxos de trabalho administrativos, as estações podem libertar as equipas para se concentrarem na criatividade e na conexão”. Com ferramentas que melhoram a verificação de factos, a validação e a descoberta de arquivos, a rádio pode oferecer conteúdo de maior qualidade, mantendo o julgamento humano no centro. Estas inovações acabam por reforçar o que mais importa: a confiança dos ouvintes.
O Público, num artigo intitulado “A nova era de ouro da rádio”[3] assinado por Gonçalo Soeiro Ferreira, refere que a rádio “ganhou uma nova importância. Seja porque nos fez companhia durante a pandemia, seja porque nos mantém informados durante um apagão ou catástrofe natural.” O autor refere que “a rádio entrou na era dos podcasts”. O artigo assinala ainda que “fazer rádio hoje é perceber que a internet chegou e que, em vez de a combater, faz mais sentido juntar-se a ela.”
O New York Times, retratando a famosa plataforma de música europeia, Spotify, que inicialmente começou com o streaming de música, e mais tarde evoluiu para podcasts, está agora a ponderar que os audiolivros serão a próxima etapa[4].
A revista Meios e Publicidade no artigo “As novas gerações e o consumo de rádio”, assinado por Vitor Dourado, relata que a «Geração Z lidera o consumo de áudio no digital, com um tempo médio de 2 horas e 13 minutos diários em plataformas de ‘streaming’ de música (+23% vs. 2019). No entanto, é prontamente seguida neste formato pelos Millennials (1 hora e 28 minutos, +38%) e pela Geração X (53 minutos, +39%), ambas com um crescimento de consumo significativo.»[5]
Os principais meios de comunicação portuguesa competem pelos podcasts com maior audiência, curiosamente a começar pela imprensa escrita, como o jornal Observador (jornal digital), que passou a ser também uma estação de rádio, o jornal o Expresso, o jornal o Público, para além das rádios (Comercial, RFM, etc.) e das televisões (RTP, SIC, etc.). O Expresso dava disso notícia em outubro de 2025 –o podcast “Contas-Poupança” (SIC Notícias/Impresa) e o “Expresso da Manhã” (Expresso/Impresa) estão classificados em 3.º e 6.º lugar respetivamente[6].
O Observatório da Paz e as rádios comunitárias
O Observatório da Paz – Nô Cudji Paz, desde cedo escolheu a rádio como um meio de comunicação estratégico para capacitar as comunidades para a Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento (PREV).
Quase metade da população da Guiné-Bissau permanece analfabeta[7], proporção que tem vindo a aumentar desde 2015, quando “apenas” 40,2% da população era analfabeta. Além disso, o recenseamento geral da população e habitação da Guiné-Bissau de 2009 mostrou que 62,1% das mulheres não sabia ler, enquanto a taxa para homens era de 34,1%. Mesmo entre os grupos mais recentemente educados, entre os 16 e os 25 anos, só 62,5% de mulheres jovens são alfabetizadas, comparado a 75,3% de homens jovens. Por conseguinte, mais importante que o acesso a relatórios redigidos em língua portuguesa e com gráficos para os quais as comunidades têm pouca literacia para interpretar, a rádio fala a língua de todos, seja o crioulo, sejam outras línguas étnicas.
O Observatório da Paz emitiu 91 edições do programa a que chamou “Bantaba de Paz”, totalizando 364 transmissões, difundidas em quatro estações emissoras – rádios Bombolom FM, Papagaio de Buba, Kassumai e na Gandal FM, estação na qual o imã sintonizava o seu transístor para escutar as notícias do dia. Os programas abordaram temas essenciais para a construção de uma sociedade mais justa e informada, incluindo a PREV, os direitos humanos, cidadania, igualdade de género, tolerância religiosa e a prevenção de conflitos comunitários. Estas edições permitiram aos cidadãos melhorar os seus conhecimentos sobre estes fenómenos, contribuindo para a formação de uma população mais consciente, crítica e preparada para agir de forma responsável no seio das suas comunidades.
Ao proporcionar informação acessível e orientação sobre estes temas, os programas fomentam o respeito mútuo, a inclusão social e o diálogo intercultural, promovendo práticas cívicas responsáveis e conscientes. Esta iniciativa reforça o compromisso com a educação cívica contínua, utilizando a rádio como uma ferramenta eficaz de comunicação e transformação social, capaz de chegar a públicos diversificados, incluindo comunidades remotas ou com acesso limitado a outras formas de informação.
Na edição n.º 4 do “Bantaba de Paz”[8], escutamos a canção “Paz”[9] do cantautor Binhan Quimor. A seguir Gueri Gomes Lopez apresenta o tema do dia: reflexões sobre o I Encontro Nacional dos Líderes Religiosos para a Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento.
A rádio, na Guiné-Bissau, e em muitas partes do mundo, inclusive em Portugal, é o meio que não deixa ninguém para trás, chega a todo o lado e pode ser ouvida sem custos significativos, com um simples transístor ou com acesso à internet num qualquer programa de podcasts ou plataformas de rádio online.
Estamos convictos, que o imã no seu rádio, escutou muitas das edições do programa “Bantaba de Paz” – local de encontro da comunidade, ou seja, o espaço de diálogo ou assembleia comunitária onde os assuntos importantes são socializados e as respostas mais consensuais aplicadas.
Por: João Monteiro | IMVF
[1] https://www.un.org/en/observances/radio-day
[2] https://www.nationalgeographic.pt/historia/dia-mundial-radio-breve-historia-portuguesa-13-fevereiro_4723
[3] https://www.publico.pt/2026/02/13/p3/noticia/nova-ouro-radio-2164720
[4] https://www.nytimes.com/2023/10/03/technology/spotify-audiobooks.html
[5] https://www.meiosepublicidade.pt/opiniao/as-novas-geracoes-e-o-consumo-de-radio
[6] https://expresso.pt/podcasts/2025-11-13-mais-de-56-milhoes-de-downloads-em-outubro-expresso-e-sic-lideram-o-mercado-de-podcasts-em-portugal-pelo-10-mes-consecutivo-22e8a40f
[7] https://www.imvf.org/2025/05/07/uma-viagem-pela-campanha-todxs-ep-5-educacao-como-fator-de-transformacao-social/
