Guiné-Bissau institucionaliza o diálogo inter-religioso com o lançamento do Fórum de Líderes Religiosos e do livro “Vozes pela Paz”

Bissau, 11 de fevereiro de 2026 – Num país onde a adhan – a chamada para a oração – se entrelaça com os sinos das igrejas e as cerimónias ancestrais se celebram sem sobressaltos, a Guiné-Bissau ergueu esta quarta-feira uma muralha simbólica contra as correntes transnacionais de intolerância. No auditório do Dunia Hotel Bissau, sob um painel que evocava “Vozes pela Paz”, cerca de uma centena de líderes religiosos – imãs, padres e irmãs católicos, pastores evangélicos e balobeiros – selaram um compromisso histórico: transformar décadas de convivência espontânea num fórum permanente de diálogo, capaz de antecipar e desativar os riscos de radicalização numa região cada vez mais vulnerável à polarização religiosa.

O lançamento do Fórum dos Líderes Religiosos da Guiné-Bissau, conjugado com a apresentação da obra “Vozes pela Paz e Tolerância – Diálogo Inter-religioso e Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento na Guiné-Bissau” que documenta esta singular experiência de tolerância, não foi um mero ato protocolar. Inserido na 12.ª Quinzena dos Direitos Humanos, e no âmbito do Observatório da Paz – Nô Cudji Paz (Nós Escolhemos a Paz), o encontro materializou uma transição crucial: da harmonia informal – que há décadas define o tecido social guineense – para um mecanismo estruturado de concertação interconfessional.

Perante um auditório que refletia a própria diversidade do país, com muçulmanos, católicos, evangélicos e guardiões das tradições animistas, técnicos de ONG e associações da sociedade civil, jornalistas, e membros do diplomáticos com representação no país – o Embaixador da União Europeia, o Embaixador de Portugal, o Embaixador do Reino de Espanha, o Embaixador do Senegal, o Cônsul Honorário da Suíça, e a Representante da CEDEAO –, a testemunharem o momento, os oradores não pouparam alertas: a “excecionalidade pacífica” da Guiné-Bissau na África Ocidental, onde os conflitos religiosos assolam os vizinhos como o Mali ou o Níger, não é um dado adquirido. É um património frágil, ameaçado por redes transfronteiriças que exploram as divisões identitárias – e que exige vigilância coletiva.

Cerimónia de abertura

O Embaixador da União Europeia (UE), Federico Bianchi, que presidiu à cerimónia de abertura, afirmou: “fico particularmente satisfeito por este evento, tal como o Observatório da Paz – Nô Cudji Paz, ter uma forte componente da Equipa Europa. Isso é a União Europeia e os seus Estados‑membros a trabalharem em conjunto para o mesmo objetivo, assim vivenciando a máxima de que juntos somos mais fortes. Penso que os muitos resultados deste projeto são prova disso mesmo.”

Em seguida o Embaixador da UE afirmou: “na atual difícil conjuntura global, que a todos nos afeta, devemos ter sempre presente que os direitos humanos são universais, inclusivos, inalienáveis, mas, também, não podem ser dados como garantidos e, por isso, devem ser continuamente defendidos todos os dias, nas nossas mesquitas, nas nossas igrejas, nas nossas diferentes comunidades.

Federico Bianchi, dirigindo-se diretamente aos líderes religiosos afirmou: “é com particular honra e respeito que me dirijo a vós, enquanto representantes das diferentes confissões religiosas da GuinéBissau e verdadeiros pastores espirituais dos vossos fiéis. Reconheço, sem reservas, o papel fundamental que desempenham na construção da paz, da harmonia social e da convivência entre os cidadãos guineenses, particularmente, em momentos difíceis como os que vivemos atualmente.”

O Embaixador acrescentou ainda estes “fenómenos [radicalismo e extremismo violento] não pertencem a nenhuma religião; eles exploram a pobreza, a exclusão social, a falta de oportunidades e a desinformação para dividir comunidades, espalhar o medo e destruir a convivência pacífica.”

Bianchi apela diretamente líderes religiosos ao dizer: “tendes uma responsabilidade especial neste combate. A vossa palavra orienta consciências, educa os jovens e fortalece valores morais. Ao promover a mensagem de paz, de justiça, de respeito pela vida humana e de rejeição da violência, tornam-se verdadeiros guardiões da estabilidade social.”

Por sua vez, o Embaixador de Portugal, Miguel Cruz Silvestre, afirmou que: “Reunimo-nos hoje para falar de paz e fazemo-lo num mundo que tantas vezes parece ter desaprendido a escutar. E fazemo-lo como um ato de consciência e como um ato de esperança consciente. Não é uma esperança ingénua, mas é uma esperança construída dia a dia, passo a passo. É a esperança que nasce quando decidimos deliberadamente escolher o diálogo em vez da divisão, a palavra em vez da violência, o encontro em vez do afastamento. É a esperança que diz, por vezes silenciosamente, que recusamos o medo como um destino comum.”

Miguel Silvestre acrescentou que “em muitas partes do mundo, as diferenças – diferenças religiosas, diferenças culturais, diferenças identitárias – deixaram de ser vistas como uma expressão da riqueza humana e passaram a ser usadas como fronteiras, passaram a ser usadas como argumentos de exclusão, passaram, sobretudo, a ser usadas como combustível para o medo. Multiplicamse as narrativas que simplificam, que rotulam, que desumanizam, que tornam o outro numa ameaça, em vez de alguém com quem se poderia conversar, construir e caminhar.” E conclui ao asseverar que “é precisamente por isso que momentos como este se tornam tão necessários. Porque reafirmam, de forma concreta, que outro caminho não é apenas possível, é desejável, é preciso, é exigido. E é exigido pela dignidade de cada pessoa humana, é exigido por cada uma e por cada um de nós.”

Para o Embaixador de Portugal a Guiné-Bissau é “um país onde diferentes crenças partilham o mesmo espaço social, onde a diversidade religiosa se entrelaça intimamente com a vida comunitária e onde a fé, vivida de formas plurais, tem sido, maioritariamente, um fator de aproximação e não de rutura”. Acrescentou que “este património imaterial, construído ao longo de gerações, constitui um bem comum, uma herança coletiva que merece ser reconhecida, valorizada e protegida com lucidez, coragem e orgulho não como curiosidade, mas como referência”. Alertou, contudo, que “não é um legado que se conserve intacto sem esforço; a paz é frágil. É um equilíbrio dinâmico que exige atenção constante, cuidado e instituições que lhe deem corpo. Precisa de espaços onde o diálogo não seja episódico, mas permanente; onde as tensões possam ser tratadas antes de se transformarem em conflitos”.

O Padre António Imbombo, Vigário Episcopal da Diocese de Bissau, em representação de todas as confissões religiosas, afirmou que “a Guiné‑Bissau construiu, ao longo da sua história, uma identidade assente na convivência pacífica entre diferentes crenças e tradições espirituais. Católicos, muçulmanos, evangélicos e praticantes da religião tradicional partilham os mesmos espaços, as mesmas comunidades e, muitas vezes, as mesmas famílias. Esta convivência tem sido um dos pilares da nossa coesão social e um traço característico da nação guineense.”

Reconheceu, todavia, “com lucidez e responsabilidade”, que, “nos últimos anos, lamentamos, têm emergido novos desafios à coesão social, marcados por contextos de instabilidade, circulação de discursos de ódio, tentativas de instrumentalização da religião para fins alheios aos valores espirituais; e sinais, ainda incipientes, mas preocupantes, de radicalização. Estes fenómenos [extremismo violento], embora não tenham enraizado profundamente na nossa sociedade, exigem vigilância, exigem prevenção e ação coordenada.”

O Padre Imbombo, enfatizou, por conseguinte, que “iniciativas como o Observatório da Paz – Nô Cudji Paz demonstram que é possível antecipar riscos, abrir espaços de debate responsável e envolver os líderes religiosos como atores centrais da solução, e não como espectadores passivos dos problemas”.

João Monteiro, na qualidade de Coordenador de Projetos do Instituto Marquês de Valle Flôr, encetou a sua intervenção usando como metáfora o seu último voo de Lisboa para Bissau. Um passageiro sentado na fila atrás de si, na descida para Bissau, disse em alta voz três vezes “Guiné-Bissau”.

“No voo de ontem, conversavam entre si animistas, muçulmanos, católicos, evangélicos, não-crentes, todos guineenses, todos unidos nas suas diferenças, porém orgulhosos do seu chão comum”, acrescentou João Monteiro.

“Nas três vezes que o guineense sentado atrás de mim invocou «Guiné-Bissau», ao avistar a cidade enquanto o avião ia descendo em direção ao aeroporto Osvaldo Vieira, estaria certamente a recordar a sua terra de igualdade, liberdade e humildade, como uma tríade ética como antídoto contra a polarização que transforma vizinhos em inimigos” – considerou João Monteiro.

Monteiro assinalou que a iniciativa de hoje vem na senda da aprovação da “Agenda Comum dos Líderes Religiosos para a Promoção da Paz e Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento na Guiné-Bissau”, datada de 1 de dezembro de 2022, discutida e votada por 50 líderes religiosos interconfessionais durante o I Encontro Nacional de Reflexão dos Líderes Religiosos para a PREV na Guiné-Bissau, realizada precisamente no mesmo auditório do mesmo hotel nos dias 30 de novembro e 1 de dezembro desse ano.

Como nota pré-introdutória ao livro “Vozes pela Tolerância e Paz”, Monteiro referiu que “desde a Conferência Mundial das Religiões em Chicago (1893), que ousou reunir tradições diversas num mesmo espaço de escuta, até ao Concílio VaticanoII com o Nostra Aetate reconhecendo a santidade presente noutras crenças, a humanidade aprendeu que a paz não nasce da uniformidade, mas do respeito à diversidade.”

Segundo João Monteiro, “os líderes religiosos, guardiões morais das nossas comunidades, têm hoje um papel crucial: serem antídoto ao discurso de ódio que envenena as redes sociais e as praças públicas. Quando a intolerância étnica tenta dividir famílias ou quando se ameaça cancelar direitos fundamentais como a liberdade de consciência, é a voz serena dos imames, padres, pastores e sacerdotes tradicionais que deve ecoar mais alto.”

Para o representante do IMVF neste ato, “vivemos, porém, num momento histórico delicado. Passados 80 anos desde a barbárie da Segunda Guerra Mundial, parece que o mundo insiste em repetir os erros descritos por Stefan Zweig em «O Mundo de Ontem»: o abandono do multilateralismo, o recuo para o bilateralismo dos interesses, o regresso à «lei do mais forte» que despreza o direito internacional”. Segundo Monteiro, “Zweig testemunhou como a Europa, ao desprezar o diálogo e abraçar o nacionalismo violento, caminhou para o abismo”.

Monteiro cita David Brooks, vivemos uma «batalha entre as forças da desumanização e da humanização». Para João Monteiro “o Fórum dos Líderes Religiosos, se for devidamente acarinhado e operacionalizado, será um caminho de resistência à indiferença, de volta à empatia, de volta ao humanismo.” Monteiro enalteceu que este caminho, trilhado pelo Observatório da Paz, foi possível graças a dois importantes pilares: o apoio da União Europeia e do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P.

Bubacar Turé, Presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, afirmou que “não obstante os progressos alcançados na prevenção do extremismo violento, o país enfrenta o desafio de consolidar os resultados obtidos e de avançar para a implementação efetiva da Estratégia e do Plano de Ação Nacional, reforçando a prevenção, a sensibilização e o desenvolvimento de capacidades institucionais e comunitárias”. Para o efeito, lançou um apelo aos parceiros, em particular à União Europeia e à Cooperação Portuguesa, para que continuem a apoiar este esforço nacional, nomeadamente, através de uma segunda fase da iniciativa.

 

Apresentação do Fórum dos Líderes Religiosos

Após a pausa-café que sucedeu a cerimónia de abertura teve lugar o painel composto pelos representantes das principais confissões religiosas, concretamente:

  • Mamadu Baldé da União Nacional dos Imames;
  • Frei Michael Daniels, da Igreja Católica;
  • Alfucene Bandjai do Conselho Nacional Islâmico;
  • Pastor Abrão Indibe do Conselho Nacional das Igrejas Evangélicas da Guiné-Bissau;
  • Ismael Pedro da Silva, representante da religião tradicional.

Os intervenientes foram unânimes em considerar crucial o papel dos líderes religiosos na promoção do diálogo inter-religioso, bem como na prevenção e mediação de conflitos, sobretudo ao nível comunitário.

Hamadou Boiro, autor do “Estudo Compreensivo sobre a Radicalização e Extremismo Violento na Guiné-Bissau”, publicado no quadro do Observatório da Paz, moderou a sessão de debate em torno dos termos de referência.

O debate concluíu com a aprovação, incluindo emendas, dos Termos de Referência que vão orientar o funcionamento do Fórum dos Líderes Religiosos, cuja primeira liderança será escolhida no próximo mês, por consenso entre as lideranças das diferentes confissões religiosas. Com uma presidência rotativa anual. A discussão foi muito participativa pelas várias confissões religiosas presentes. Apesar de em minoria a maior parte das 9 mulheres interveio trazendo preocupações e uma objetividade prática necessária para consolidar as etapas seguintes de operacionalização do Fórum.

Vozes pela Paz e Tolerância – Diálogo Inter-religioso e Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento na Guiné-Bissau

O evento incluiu ainda a apresentação do livro “Vozes pela Paz e Tolerância – Diálogo Inter-religioso e Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento na Guiné-Bissau”, publicado no quadro do Observatório da Paz como um contributo relevante para a reflexão nacional sobre os desafios da radicalização.

A obra reúne testemunhos e contributos de líderes religiosos, ativistas, personalidades públicas da sociedade guineense, evidenciando a sua adesão ao diálogo para a paz, tolerância e prevenção do radicalismo e extremismo violento. O livro contém um ensaio sobre a evolução histórica do diálogo inter-religioso no mundo, mas também experiências concretas na Guiné-Bissau. Contém uma resenha específica sobre como o direito à liberdade religiosa está consagrado na legislação do país, desde logo, aquela que é a mãe de todas as leis, a Constituição.

O livro constitui-se assim como promotor do diálogo inter-religioso como instrumento de coesão social, prevenção de conflitos e fortalecimento da convivência pacífica. Mais do que uma publicação, o livro afirma-se como um compromisso coletivo com a paz e como uma ferramenta pedagógica para comunidades, decisores políticos e sociedade civil.

Foto de família e oração pela paz e tolerância religiosa

O evento incluiu uma foto de família com todos os participantes, antes do almoço-convívio, o qual seria encerrado através de uma oração conjunta, manifesta na sua diversidade, em prol da paz e da tolerância religiosa na Guiné-Bissau, num gesto simbólico de unidade entre as diferentes confissões religiosas.

Este momento reforçou o compromisso coletivo com a convivência pacífica, o respeito mútuo e a preservação da harmonia que caracteriza a sociedade guineense.

Num mundo marcado por discursos de ódio e instrumentalização identitária, a Guiné‑Bissau oferece hoje um exemplo concreto: a institucionalização do diálogo como escudo contra a radicalização e como alicerce de uma paz construída dia a dia — «não como esperança ingénua, mas como esperança consciente», nas palavras do embaixador português.

 


O Observatório da PazNô Cudji Paz é financiado pela União Europeia e cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., sendo implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH). A ação visa contribuir para o diálogo e para a promoção da paz, através do reforço da participação, do trabalho em rede e do estabelecimento de parcerias estratégicas entre organizações da sociedade civil e outros atores sociais e políticos, com vista à prevenção da radicalização e do extremismo violento na Guiné-Bissau.

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