
Bafatá, Guiné-Bissau — Na quarta-feira, 24 de abril de 2026, a cidade de Bafatá acolheu um djumbai (um encontro comunitário de raiz tradicional), que reuniu cerca de 150 participantes, dos quais 69 mulheres, maioritariamente jovens estudantes de diferentes estabelecimentos de ensino na cidade.
O evento, organizado pelo projeto Observatório da Paz – Nô Cudji Paz, teve como objetivo traçar estratégias de prevenção do radicalismo e extremismo violento e exigir melhorias no acesso aos serviços básicos, designadamente à educação, mas também ao nível da boa governação.
A expressiva participação juvenil evidenciou o crescente interesse da juventude pelas questões ligadas à paz, à cidadania e ao desenvolvimento, bem como a necessidade da criação de espaços inclusivos de diálogo e reflexão.

Na sessão de abertura, Bubacar Turé, Presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH) e coordenador local do Observatório da Paz – Nô Cudji Paz, destacou a importância do diálogo comunitário como instrumento essencial para a prevenção de conflitos e a construção de sociedades resilientes. Sublinhou que o respeito pelos direitos humanos deve constituir a base de qualquer sociedade justa, com especial atenção aos grupos vulneráveis, nomeadamente as mulheres, as pessoas com deficiência e os jovens, frequentemente expostos a múltiplas formas de exclusão e violência.
Turé manifestou preocupação com o agravamento das práticas nocivas, como os casamentos infantis e os casamentos forçados, bem como com a mutilação genital feminina, alertando para as consequências ao nível da saúde, da educação e do desenvolvimento pessoal das vítimas.
Bubacar Turé chamou igualmente à atenção para o crescimento de práticas obscurantistas, incluindo as acusações de feitiçaria, as quais têm resultado em atos de violência e na perda de vidas humanas. Turé defende o reforço da educação cívica, o acesso à justiça e da proteção da dignidade humana.
A nível regional e internacional, o presidente da Liga destacou o crescimento dos grupos radicais e extremistas, com particular incidência na África Ocidental, sublinhando as graves consequências sociais, políticas e humanitárias desse fenómeno. Neste contexto, apelou aos jovens para que recusem a adesão a ideologias extremistas, alertando para os mecanismos de manipulação e instrumentalização da juventude por parte desses grupos para fins violentos.
Durante o debate, os participantes, maioritariamente jovens, manifestaram preocupação com o deficiente funcionamento dos serviços sociais básicos, nomeadamente nos sectores da educação, saúde, no acesso a água potável e energia eléctrica, sobretudo nas regiões do interior do país, onde as desigualdades são mais acentuadas.
Os participantes denunciaram igualmente o elevado índice de corrupção, salientando os efeitos negativos na governação, na confiança nas instituições públicas e no próprio desenvolvimento económico e social. Destacaram que a corrupção limita o acesso equitativo a serviços essenciais e agrava as desigualdades existentes.
Outro tema amplamente debatido foi a escassez de oportunidades de formação académica e técnico-profissional, especialmente fora dos centros urbanos. Os jovens referiram que esta realidade contribui para o aumento do desemprego e da frustração social, criando condições propícias à manipulação e à instrumentalização para fins violentos.
Foram ainda levantadas outras preocupações relevantes, tais como o desemprego juvenil; a fragilidade do sistema educativo; a insuficiente participação dos jovens nos processos de tomada de decisão; e a persistência das desigualdades de género, que continuam a limitar o acesso equitativo às oportunidades.
O djumbai constituiu um espaço privilegiado de diálogo, partilha e reflexão, contribuindo para o reforço da consciência cívica e para a promoção de uma cultura de paz, inclusão e convivência harmoniosa.

Recomendações do djumbai
Com base nas reflexões apresentadas durante o djumbai, recomenda-se o reforço do acesso à educação de qualidade e à formação técnico-profissional, com especial atenção às regiões do interior.
Destaca-se igualmente a necessidade de desenvolver programas de prevenção do radicalismo e extremismo violento dirigidos à juventude, promovendo o pensamento crítico, a inclusão social e oportunidades de desenvolvimento.
Recomenda-se ainda o reforço das ações de combate a práticas nocivas, como os casamentos infantis e a mutilação genital feminina, bem como a promoção de campanhas de sensibilização contra as acusações de feitiçaria e outras práticas que atentam contra a dignidade humana.
É de igual modo fundamental investir na melhoria dos serviços sociais básicos, nomeadamente, nos sectores da educação, saúde, água potável e energia elétrica, garantindo maior equidade no acesso a serviços essenciais.
No domínio da governação, sublinha-se a importância do combate à corrupção, da promoção da transparência e da responsabilização das instituições públicas.
Por fim, recomenda-se a criação de mecanismos que incentivem a participação ativa dos jovens nos processos de tomada de decisão, bem como a promoção contínua de iniciativas que reforcem a cultura de paz, o diálogo e a coesão social.

Fé e espiritualidade no diálogo pela paz
À margem desta missão em Bafatá, a delegação da LGDH e do projeto Nô Cudji Paz participou, igualmente, na Procissão pela Paz na Guiné-Bissau, realizada no dia 25 de abril. Uma iniciativa que mobilizou milhares de jovens provenientes de todo o território nacional.
Num ambiente de grande fervor espiritual, os participantes caminharam unidos, elevando a uma só voz a defesa da paz, da reconciliação nacional e da convivência harmoniosa entre os guineenses, reforçando os valores da unidade, da solidariedade e da coesão social.
A convite da Diocese local, a delegação participou, de igual modo, no dia 26 de abril de 2026, na cidade de Bafatá, na missa solene de encerramento das atividades do Jubileu dos 25 anos da criação da Diocese de Bafatá e na IXª Jornada Interdiocesana da Juventude Católica Guineense, com mais de 5 mil fiéis.
A celebração, marcada por um profundo espírito de fé, comunhão e esperança, reuniu fiéis, autoridades locais e parceiros internacionais, incluindo os Embaixadores de Portugal, da União Europeia e do Reino de Espanha, bem como os líderes tradicionais, constituindo um forte sinal de unidade, diálogo e compromisso com a paz.
