Em Bambadinca, o diálogo comunitário revela as raízes locais de um desafio global: a prevenção do radicalismo a extremismo violento


BAMBADINCA, Guiné‑Bissau – Numa tarde quente no leste da Guiné‑Bissau, uma escola secundária transformou‑se num laboratório cívico onde professores, estudantes, líderes comunitários e defensores dos direitos humanos se sentaram para discutir um fenómeno que, embora ainda distante da experiência quotidiana local, molda crescentemente a agenda de segurança regional: o radicalismo e o extremismo violento.

O djumbai, um fórum comunitário tradicional de diálogo, reuniu cerca de 125 participantes no Liceu Padre António Grillo, a 30 de abril de 2026. À primeira vista, tratou‑se de um debate local sobre a juventude, os direitos humanos e os comportamentos de risco. Na prática, revelou‑se a aplicação em microescala do que a literatura académica descreve como a prevenção estrutural do extremismo violento: atuar antes da violência, abordando as suas causas profundas.

Organizado pelo projeto Observatório da Paz — Nô Cudji Paz, em parceria com o Fórum de Estudantes, Filhos e Amigos de Bambadinca, o encontro procurou responder a uma pergunta central contemporânea: porque é que alguns jovens se tornam vulneráveis a narrativas extremistas enquanto outros, expostos às mesmas condições, não?

O djumbai como ferramenta de prevenção primária

Ao optar pelo modelo do djumbai, o Observatório da Paz segue a abordagem defendida pela literatura académica sobre a prevenção do extremismo violento: soluções enraizadas nos contextos locais são essenciais para prevenir o extremismo violento. Segundo uma revisão de 73 artigos científicos publicada no Studies in Conflict & Terrorism, os quatro pilares centrais emergem nestas abordagens preventivas: o desenvolvimento do “indivíduo resiliente”, a gestão da identidade, o fomento do diálogo aberto e o fortalecimento das comunidades. Em vez de discursos securitários, o encontro privilegiou a escuta-ativa, o diálogo intergeracional e a participação comunitária.

A composição do grupo, com uma presença significativa de mulheres e raparigas – 59 participantes, reforçou outra dimensão central das abordagens académicas: a inclusão de género como fator de resiliência social. Os estudos recentes sublinham que as sociedades com maior participação feminina nos processos de decisão tendem a apresentar maior resistência à radicalização violenta. Esta prioridade foi também identificada como transversal na Estratégia Nacional de Prevenção do Radicalismo e do Extremismo Violento da Guiné-Bissau (PREV-GB), validada e apresentada publicamente em abril de 2026, que reconhece o papel estratégico das mulheres na prevenção da violência, na mediação comunitária e no reforço da coesão social.

 

Os direitos humanos como linha de defesa invisível

Desde o início, o debate deixou claro que o extremismo violento não emerge no vazio. A equipa do Observatório da Paz enfatizou que a violação sistemática dos direitos humanos, a exclusão social e a ausência de justiça formam um terreno fértil para as narrativas radicais, uma leitura consistente com a literatura académica sobre pathways to radicalization (caminhos para a radicalização).

A educação abrangente em direitos humanos que influencie tanto o conteúdo quanto a ação do ensino, “promove uma cultura inclusiva” (Davies). A “batalha de ideias”, assente na promoção dos “valores da comunidade, tolerância e união” para contrariar o ódio e a polarização das narrativas extremistas (Macnair e Frank) foi a abordagem seguida neste djumbai.

As questões como o casamento precoce, a desigualdade no acesso à educação e a marginalização de jovens foram descritas não apenas como problemas sociais, mas como fatores estruturais de risco. Quando os direitos são negados de forma persistente, argumentaram vários participantes, abre‑se espaço para os discursos que prometem pertença, dignidade e reconhecimento, ainda que por meios violentos.

 

Juventude, risco de “vulnerabilidades acumuladas”

A discussão deslocou‑se naturalmente para a juventude, grupo identificado na literatura como particularmente exposto a processos de radicalização quando enfrenta vulnerabilidades acumuladas: desemprego, abandono escolar, consumo de drogas, frustração identitária e a ausência de perspetivas futuras.

Em Bambadinca, os estudantes relataram experiências de consumo precoce de álcool e drogas, início antecipado da vida sexual e falta de acompanhamento familiar e institucional. Estes relatos vão ao encontro dos estudos sobre o fenómeno que concluem não existir um fator único conducente à radicalização, mas sim a sobreposição de fatores como as fragilidades sociais, económicas e psicológicas. O desenvolvimento da autoestima e da empatia pode impedir que os indivíduos sejam atraídos para o extremismo violento (Feddes, Mann e Doosje).

 

 

Extremismo violento: uma ameaça transnacional com raízes locais

Embora a Guiné‑Bissau permaneça fora dos principais epicentros de extremismo violento, os participantes demonstraram a consciência de que a radicalização não respeita as fronteiras nacionais. As referências ao Sahel, particularmente o Mali, o Burkina Faso e o Níger, ilustram como os contextos de fragilidade institucional e pobreza podem ser explorados por grupos armados para recrutar jovens.

Este ponto alinha‑se com análises regionais que destacam a necessidade de soluções regionais para combater a crescente crise de segurança no Sahel. Segundo Dideberg e Melly (Chatham House, 2025), a propagação aparentemente implacável da violência pelo Sahel representa um desafio existencial para a África Ocidental, exigindo coordenação entre estados costeiros e do interior. A formação da Alliance des États du Sahel (AES) em janeiro de 2025 por Mali, Burkina Faso e Níger evidencia as complexidades da governança regional e a necessidade de respostas adaptadas aos contextos específicos de cada país.

Quando o debate revela violações concretas

O carácter aberto do djumbai permitiu que os estudantes denunciassem situações específicas de violência doméstica, casamentos forçados e restrições à liberdade religiosa no contexto escolar. Estes testemunhos transformaram o encontro de um exercício analítico num espaço de responsabilização institucional.

A emergência destas denúncias confirmou outro princípio central das estratégias de prevenção: a radicalização prospera onde há impunidade e silêncio institucional. A Estratégia Nacional PREV-GB reconhece explicitamente que “a prevenção da radicalização exige uma resposta estruturada, articulada e sustentada no tempo, baseada na confiança entre cidadãos e instituições, e no reforço do contrato social.”

 

Da escuta à ação institucional

Em resposta, Bubacar Turé, Presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, e coordenador local do projeto, comprometeu‑se, publicamente, a levar os casos às autoridades competentes, reafirmando que a liberdade religiosa e a proteção das crianças são princípios não negociáveis no quadro constitucional do país.

Este compromisso refletiu uma dimensão frequentemente destacada na literatura especializada: a ligação entre a prevenção do extremismo violento, o Estado de Direito e a confiança nas instituições. A abordagem adotada pela Guiné-Bissau assenta numa perspetiva preventiva, integrada e baseada em evidências, reconhecendo a natureza multifatorial destes fenómenos, profundamente enraizados em dinâmicas sociais, económicas, políticas e culturais.

 

Construção de sociedades resilientes

No final, o djumbai de Bambadinca deixou uma conclusão clara: a juventude não deve ser vista apenas como um potencial problema de segurança, mas como o principal recurso na construção de sociedades resilientes. Ao criar espaços de diálogo, reforçar os direitos e oferecer perspetivas reais de inclusão, as comunidades como em Bambadinca alinham‑se com uma visão defendida pela literatura académica e pela Estratégia Nacional PREV-GB: a paz duradoura começa muito antes da intervenção policial ou militar.

Num mundo onde o extremismo violento continua a adaptar‑se a contextos locais, o diálogo comunitário revela‑se não como um ritual simbólico, mas como uma estratégia de prevenção silenciosa e profundamente política. Como conclui a revisão de literatura sobre prevenção do extremismo violento: “A verdadeira resiliência de uma sociedade mede‑se não pela capacidade dos cidadãos suportarem a injustiça, mas pela sua vontade de a erradicar.”

 


O Observatório da Paz decorreu de 2022 a 2026, com 52 ações de capacitação, incluindo ações de formação, djumbais, seminários, fóruns, conferências, com 4903 participantes, incluindo 2411 mulheres (49,2%). O projeto foi implementado pelo IMVF e pela LGDH através do financiamento da União Europeia e do Camões, I.P.

 

 



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