Guiné-Bissau lança Estratégia Nacional para prevenir o extremismo violento até 2035

Conferência “A PREV na Guiné-Bissau”, Painel 1

Bissau, 28 de abril de 2026 — A Guiné-Bissau não espera que a tempestade chegue. Numa sessão solene realizada no Hotel Dunia Bissau, a sociedade civil dá um contributo notável ao país ao apresentar publicamente a Estratégia Nacional e Plano de Ação para a Prevenção do Radicalismo e do Extremismo Violento na Guiné-Bissau (PREV-GB), para o horizonte 2025–2035, um documento que pretende transformar a resiliência histórica da sociedade guineense em política de Estado. O evento, organizado pelo projeto Observatório da Paz — Nô Cudji Paz —, reuniu 174 participantes, entre as quais 61 mulheres, refletindo um envolvimento significativo e inclusivo dos diferentes segmentos da sociedade, incluindo líderes religiosos, jornalistas, ONG, Nações Unidas com representação no país, corpo diplomático e funcionários da administração pública.

A mensagem central foi prevenir não é importar soluções securitárias, mas fortalecer o que já protege a coesão social. “O maior desafio não é o ‘terrorista’ vindo de fora, mas a fragilidade institucional, a pobreza extrema, o desemprego juvenil e, acima de tudo, a manipulação política das identidades“, afirmou Carolina Quina, Administradora Executiva do Instituto Marquês de Valle Flôr, ao apresentar os estudos produzidos pelo Observatório da Paz entre 2022 e 2026. O diagnóstico, construído a partir de auscultações a mais de 200 atores-chave em Bissau, Cacheu e Gabú, incluindo a administração pública, afasta a lógica reativa: a estratégia propõe agir antes que a ferida se abra.

Nós Cuidamos da Paz

O cantor guineense Binhan preencheu a sala com a sua voz, desta vez apoiada pela imponente sonoridade de uma coluna de 1000 watts, ao cantar a música “paz”, tendo apelado à audiência no auditório Madina do Boé 1, do Hotel Dunia, que se colocasse de pé e o acompanhasse.

Antes da abertura oficial, foi apresentado um importante testemunho do professor Carlos Lopes, uma das vozes mais influentes no desenvolvimento africano contemporâneo. Nascido na Guiné-Bissau em 1960, Carlos Lopes é economista de desenvolvimento com uma carreira exemplar no sistema das Nações Unidas. Atualmente, é Professor na Escola Mandela de Governança Pública da Universidade de Cabo Verde e Fellow da Academia Africana de Ciências. No seu testemunho, enalteceu a importância do trabalho desenvolvido pelo Observatório da Paz no âmbito da prevenção do radicalismo e do extremismo violento (PREV), destacando a relevância de iniciativas nacionais estruturadas, sustentáveis e assentes num diagnóstico rigoroso das vulnerabilidades.

Sessão solene; Bakary Sambe (esquerda), Carolina Quina, Miguel Silvestre Cruz, Fernando Trabanda-Crende, Bubacar Turé.

A sessão solene foi presidida pelo Embaixador de Portugal em Bissau, Miguel Cruz Silvestre. Na sua intervenção, o Embaixador destacou que “As dinâmicas de radicalização e extremismo violento que atravessam a África Ocidental e o Sahel, mas que se manifestam igualmente a nível global, mostram-nos que nenhum país está imune às pressões transnacionais, às redes criminosas, à manipulação ideológica e à exploração das fragilidades sociais e económicas. Onde existem desigualdades profundas, ausência de perspetivas para os jovens, erosão da confiança nas instituições, é aí que o extremismo encontra terreno fértil.”

Segundo Miguel Silvestre, “é por isso que o trabalho de prevenção do radicalismo e extremismo violento na Guiné-Bissau é particularmente relevante, porque parte de um diagnóstico sério, de um estudo compreensivo sobre as vulnerabilidades locais, e propõe uma resposta integrada, multissetorial e de longo prazo.”

Para o Embaixador de Portugal, “a Estratégia e o Plano de Ação que serão hoje aqui apresentados assumem, de forma clara, que o melhor antídoto contra o extremismo violento não é apenas o reforço securitário, mas sim o investimento estruturado em governação democrática, educação para a cidadania, envolvimento comunitário e inclusão social e económica.”

Miguel Silvestre, numa intervenção muito bem estruturada, referiu ainda “três ideias que me parecem estruturantes. Primeiro, a importância da apropriação, por todos e a todos os níveis. Uma estratégia de prevenção só é eficaz se for sentida e assumida como “própria” e “sua”: pelas autoridades guineenses, pelas comunidades, pelos líderes religiosos, pela juventude, pelos meios de comunicação social. O projeto “Nós Cuidamos da Paz” (Nô Cudji Paz), e a Estratégia que hoje aqui conhecemos, construída “de dentro para fora” a partir da realidade guineense, mostrou que é possível criar um espaço de reflexão crítica e um compromisso coletivo, assente em metodologias participativas que dão voz às inquietações e às esperanças das pessoas. Quando a sociedade se reconhece na agenda da prevenção, não como destinatária, mas como protagonista, essa é a melhor garantia de sustentabilidade.”

O segundo ponto do Embaixador assenta na “centralidade dos líderes religiosos. Num país onde o diálogo inter e intrarreligioso é uma realidade viva, os líderes islâmicos, católicos, protestantes, das religiões tradicionais, e de outras confissões, não se limitam a serem figuras espirituais; são guardiães de confiança, mediadores sociais, promotores do diálogo e obreiros da paz.” Quanto ao terceiro ponto, “o papel estratégico da comunicação social e das narrativas. Num tempo em que a desinformação circula mais depressa do que a verdade, os meios de comunicação social – tradicionais e digitais – podem ser tanto parte do problema como parte da solução. O enfoque nas contra-narrativas é decisivo: não basta desmentir; é preciso propor narrativas alternativas credíveis, mobilizadoras, ancoradas na realidade das comunidades.”

Para o Embaixador de Portugal em Bissau “dizer que “Nós Cuidamos da Paz” (Nô Cudji Paz) significa também que “nós cuidamos da palavra” (nô cudji palavra), palavra como compromisso de honra, palavra como veículo de diálogo, palavra como instrumento de paz.”

Fernando Trabada-Crende, Chefe de Cooperação da Delegação da União Europeia

Fernando Trabada-Crende, Chefe de Cooperação da Delegação da União Europeia, considera que “a Guiné-Bissau é, historicamente, um exemplo de convivência pacífica entre diferentes etnias, religiões e culturas. Este património de tolerância é um dos seus maiores tesouros. No entanto, essa harmonia não deve ser tomada como garantida.” E explica a sua preocupação: “Os sinais de tensão que temos observado — discursos de ódio, conflitos comunitários, instrumentalização política da religião — mostram que a coesão social pode ser fragilizada se não agirmos com responsabilidade e visão estratégica. Segundo Trabada-Crende, o “radicalismo e o extremismo violento não surgem do nada, alimentam-se de desigualdades, de injustiças percebidas, da falta de oportunidades e da ausência de diálogo.”

Para o Chefe de Cooperação da UE, “quando os jovens se sentem excluídos, quando as comunidades não confiam nas instituições, quando a diversidade deixa de ser vista como riqueza e passa a ser encarada como ameaça — criam-se as condições para o extremismo crescer. Segundo Trabada-Crende “prevenir o radicalismo não é apenas uma questão de segurança — é uma questão de desenvolvimento, de justiça e de dignidade humana. É garantir que cada cidadão se sinta parte de uma nação que o respeita e valoriza.” E conclui “por isso, é fundamental que a Guiné-Bissau adote uma estratégia nacional clara, inclusiva e sustentável para prevenir estes fenómenos.”

Bakary Sambe, Diretor Regional do Instituto Timbuktu

Bakary Sambe, Diretor Regional do Instituto Timbuktu, contextualizou a urgência do momento. Com um mapa projetado na sala, desenhou uma cartografia de riscos em três níveis: os países afetados pelo extremismo violento (o Mali, o Níger, e o Burkina Faso), os países sob pressão securitária (a Mauritânia, o Chade, o Benim) e os países em ação preventiva, como a Guiné-Bissau. “A janela de oportunidade para prevenir está a fechar-se”, alertou, sublinhando que o nordeste do país (Bafatá–Gabú) apresenta um risco elevado, enquanto a capital, Bissau, na sua dimensão urbana, enfrenta um risco emergente.

Sambe recordou o caso do Burkina Faso, quando em 2014 ninguém imaginaria que uma escalada de violência extrema fosse factível. A ausência de ação preventiva resultou, uma década depois, em milhares de mortos e milhões de deslocados. A lição para Bissau é clara: capitalizar o sincretismo religioso e a tradição de diálogo intercomunitário enquanto ainda é possível.

Carolina Quina, Administradora Executiva do IMVF

Carolina Quina, Administradora Executiva do IMVF, destacou que “o maior desafio não é o ‘terrorista’ vindo de fora, mas as fragilidades internas. A impunidade, a falta de acesso à justiça e a exclusão das mulheres e jovens criam o terreno fértil para o extremismo.” Sublinhou ainda que: “A estratégia é um reconhecimento de que a melhor forma de prevenir a radicalização é atacar as suas causas: a pobreza, a exclusão e a falta de perspetiva. É uma estratégia de empoderamento identitário. Queremos que cada guineense se sinta forte na sua identidade, para que não seja instrumentalizado por discursos de ódio.” E concluiu que “prevenir é melhor do que remediar. Não estamos a chamar o problema; estamos a blindar a sociedade guineense contra o risco. Estamos a transformar a resiliência natural guineense numa política de Estado.”

Bubacar Turé, Presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH)

Bubacar Turé, Presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos e coordenador de terreno do Observatório da Paz, destacou um resultado concreto do processo: a criação do Fórum dos Líderes Religiosos da Guiné-Bissau. “Não é apenas um espaço de diálogo. É um mecanismo de alerta precoce. Quando surgem fenómenos de tensão, o Fórum permite agir preventivamente — antes que a chama se transforme em incêndio.” Segundo Turé, “o radicalismo e o extremismo violento configuram desafios complexos e multidimensionais, que transcendem fronteiras e exigem respostas articuladas e sustentadas. Embora a Guiné-Bissau não se encontre, atualmente, entre os principais focos destes fenómenos, não podemos ignorar os fatores de vulnerabilidade existentes.”

Para o Presidente da LGDH, “a situação na África Ocidental e no Sahel é profundamente preocupante”, referindo que, “em 2025, cerca de 23.968 pessoas perderam a vida em ataques terroristas em África, representando um aumento de 24% e o nível mais elevado já registado”. Alertou igualmente para a existência de uma profunda crise de confiança entre cidadãos e instituições: “Quando a confiança se perde, instala-se a incerteza. Quando a esperança vacila, abre-se espaço para a divisão. O diálogo não é uma opção, é uma necessidade nacional.”

Painel 1 – Nô Cudji Paz – Balanço e Estratégia Nacional para a PREV

João Monteiro, especialista em cooperação para o desenvolvimento do IMVF

João Monteiro, especialista em cooperação para o desenvolvimento do Instituto Marquês de Valle Flôr, conduziu a passagem de testemunho quer do seu colega Bubacar Turé, da LGDH na qualidade de parceiro do projeto, quer a um dos autores da Estratégia Nacional e Plano de Ação, Alfredo Handem.

Para Turé, um dos principais resultados do projeto Observatório da Paz foi que “o tema da Prevenção do Radicalismo e do Extremismo Violento entrou na ordem do dia — não só nas organizações da sociedade civil, mas ao mais alto nível do Estado, e junto dos líderes religiosos.” Os números ilustram a escala do esforço: mais de 50 ações de capacitação e 4.500 pessoas abrangidas, incluindo líderes religiosos das maiores confissões religiosas, jornalistas, técnicos da administração pública e organizações que trabalham com a juventude e as mulheres, rede de pontos focais para monitorização no país articulados com o Observatório da Paz sedeado em Bissau.

De acordo com Bubacar Turé, “trabalhámos com grande proximidade com os diferentes órgãos do Governo — com a presença de dois primeiros-ministros, um presidente da Assembleia Nacional Popular, a Ministra da Justiça e Direitos Humanos, entre outras altas figuras.”

Alfredo Handem, consultor, um dos autores da Estratégia Nacional PREV-GB

Alfredo Handem, consultor, apresentou publicamente a Estratégia Nacional e o Plano de Ação para a Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento na Guiné-Bissau, trabalho que fez em coautoria com a prestigiada jurista Carmelita Pires. Para Handem a “Estratégia PREV-GB estrutura-se em quatro eixos operacionais, com ações concretas e indicadores mensuráveis:

  1. Inclusão Social e Económica: combater as causas profundas da radicalização — desemprego juvenil, exclusão feminina, pobreza extrema — através de formação profissional, microcrédito, bolsas por mérito e cooperativas comunitária;
  2. Educação, Comunicação e Diálogo Religioso: integrar cidadania nos currículos, formar professores em narrativas para a paz, promover literacia digital e apoiar líderes religiosos na construção de contra-narrativas baseadas em factos;
  3. Estado de Direito e Governação: reforçar as instituições, garantir o acesso à justiça, regular responsavelmente as redes sociais (com salvaguardas de liberdade) e responsabilizar os agentes públicos;
  4. Resiliência Comunitária: criar 50 Bancadas de Cidadania, revitalizar os Comités de Tabanca com quota mínima de 40% de mulheres, e instituir uma Central de Inteligência PREV para monitorização de discursos de ódio”

“Cada eixo tem ações concretas, indicadores mensuráveis e entidades responsáveis”, sublinhou Handem. “E tudo isto está articulado num Plano de Ação para 2025–2035, com um orçamento indicativo de 2,8 milhões de dólares, sujeito a ajustes após aprovação governamental e mobilização de parceiros”, conclui o consultor Alfredo Handem.

 

Painel 2: Do Sahel à Guiné-Bissau – Os Desafios do Extremismo Violento

Painel 2: Bakary Sambe (à esquerda), Coronel António Quadrado; Hamadou Boiro (e Bubacar Turé como tradutor)

O segundo painel, moderado pelo Coronel António Quadrado (Ministério da Administração Interna de Portugal), contou com Bakary Sambe (Diretor Regional do Instituto Timbuktu) e Hamadou Boiro (Investigador Sénior do INEP). Os oradores contextualizaram a expansão do extremismo violento no Sahel e sublinharam a importância de a Guiné-Bissau investir na prevenção antes da crise, capitalizando a sua tradição de diálogo inter-religioso como fator de resiliência regional.

 

O Dr. Bakary Sambe alertou que a ameaça do extremismo violento se desloca progressivamente do Sahel para a África Ocidental costeira, colocando a Guiné-Bissau numa “janela de urgência” preventiva. Apresentou uma cartografia de riscos diferenciada: Nordeste (Bafatá–Gabú) com risco elevado; zona costeira com risco médio; e Bissau urbano com risco emergente. Defendeu uma abordagem de segurança humana, não securitária, centrada na matriz dos “3 P” (PUSH, PULL, PROCESS) e na prevenção primária como a mais eficaz e menos dispendiosa. Sublinhou o papel estratégico de líderes religiosos (89% de confiança popular), mulheres e jovens como alavancas de resiliência, propondo um roteiro de 36 meses com objetivos mensuráveis para capitalizar o sincretismo religioso guineense como antídoto à radicalização.

Hamadou Boiro, académico

Hamadou Boiro definiu o extremismo violento como um fenómeno complexo que recorre à coação e ao ódio para destruir direitos fundamentais e a democracia, alertando que a Guiné-Bissau enfrenta vulnerabilidades que podem ser instrumentalizadas. Destacou a fragmentação das organizações islâmicas (CNI, CSI, AUIGB), onde tensões étnicas subjacentes convivem com uma fachada pública cosmopolita. Denunciou a infiltração via financiamento externo de associações, bolsas e locais de culto e criticou frontalmente a classe política: «É muito fácil manipular as nossas políticas… são os políticos que são os mais perigosos». Reconheceu o crioulo e a miscigenação como baluartes de coesão, embora subsista desconfiança face a estrangeiros. Propôs mapear as associações religiosas, capacitar mulheres líderes para mediação e enfrentar o fenómeno das crianças talibé como prioridades de prevenção.

 

Painel 3: Fé, Diálogo e Prevenção — O Contributo dos Líderes Religiosos

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Painel 3: Fé, Diálogo e Prevenção: O Contributo dos Líderes Religiosos para a PREV-GB

Moderado por Denise Santos Indeque (WANEP-GB), o terceiro painel reuniu representantes das principais confissões religiosas do país: Ismael Pedro da Silva (Religião Tradicional), Pastor Abrão Indibe  (Vice-Presidente do Conselho Nacional das Igrejas Evangélicas), Imame Mamadu Uri Baldé (União Nacional dos Imames), Frei Michael Daniels, da Igreja Católica e Imame Madudji Malam Mané (Conselho Nacional Islâmico). Os líderes reafirmaram o compromisso coletivo com a tolerância, o diálogo e a rejeição de qualquer instrumentalização política da fé. Manifestaram o seu compromisso com a operacionalização do Fórum dos Líderes Religiosos da Guiné-Bissau.

Painel 4: Vozes da Mudança — Jovens, Mulheres e Meios de Comunicação

Paula Camará (à esquerda), Indira Correia Baldé, Lassana Cassamá, Silvina Tavares

O último painel, moderado por Indira Correia Balde (Sindicato dos Jornalistas), deu voz a Paula Camará (Academia Ubuntu), Silvina Tavares (Plataforma Política das Mulheres) e Lassana Cassamá (Capital Media). As intervenções destacaram o papel central dos jovens e das mulheres como agentes de resiliência comunitária e sublinharam a responsabilidade dos meios de comunicação na promoção de contra-narrativas baseadas em factos, valores democráticos e diversidade cultural.

A próxima etapa começa já

A conferência encerrou com um conjunto de recomendações operacionais: apropriação efetiva do plano estratégico pelas autoridades nacionais, continuidade das ações de sensibilização (incluindo programas radiofónicos e Djumbais), reforço do diálogo intra e inter-religioso, maior envolvimento das mulheres na promoção da paz e mobilização de recursos para uma segunda fase do projeto Observatório da Paz.

Na sessão de encerramento Bubacar Turé aludiu à recente vaga de ataques coordenados em várias cidades do Mali, que vitimaram inúmeras pessoas, incluindo o ministro da Defesa, considerando que estes episódios lembram, de forma dolorosa, que a ameaça é real, crescente e “profundamente devastadora”. “Não são apenas números. São vidas humanas. São famílias destruídas. São comunidades mergulhadas na dor. Em nome da Liga Guineense dos Direitos Humanos, condenamos com firmeza esta escalada de violência e expressamos a nossa profunda solidariedade ao povo maliano e às famílias das vítimas”, afirmou. Sublinhou que a instabilidade política, a fragilidade governativa e a crescente proliferação de discursos de ódio fragilizam a coesão social e podem abrir espaço a dinâmicas de radicalização. “Sem apropriação nacional, não há sustentabilidade. Sem liderança institucional, não há coerência. E sem implementação efetiva, não há resultados”, enfatizou. Reconheceu igualmente o papel dos líderes religiosos do país, que se têm afirmado como agentes de diálogo, moderação e construção da paz, bem como do Observatório da Paz “Nô Kudji Paz”, pelas ações consistentes e de elevado impacto desenvolvidas neste domínio.

Por sua vez, a administradora executiva do Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF), Carolina Quina, afirmou que foram realizadas ações de sensibilização, capacitação e alerta, incluindo a formação de 66 jornalistas e de mais de 35 quadros da administração pública em áreas como a justiça e a administração interna. Carolina Quina destacou que o projeto abrangeu todas as regiões do país. “A Guiné-Bissau não enfrenta um risco iminente de terrorismo, mas não é suficiente dizer que o povo é pacífico. Existem, sim, ameaças sérias e reais”, alertou. Segundo afirmou, as estratégias assentam em quatro eixos: reforço do Estado de direito, educação, comunicação estratégica e envolvimento social e comunitário. Por fim, sublinhou que a estratégia parte do reconhecimento de que a melhor forma de prevenir a radicalização é atacar as suas causas profundas.


O projeto Observatório da Paz – Nô Cudji Paz é financiado pela União Europeia e cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., sendo implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH). A iniciativa visa “promover o diálogo, o trabalho em rede e o desenvolvimento de parcerias estratégicas, contribuindo para a prevenção da radicalização e do extremismo violento na Guiné-Bissau”.



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