Guiné-Bissau valida a Estratégia Nacional e Plano de Ação para prevenir a radicalização e o extremismo violento

Bissau, 16 de abril de 2026 — A Guiné-Bissau deu um passo decisivo na construção de uma resposta estruturada aos riscos de radicalização e extremismo violento com a realização, nesta quarta-feira, do atelier de validação da Estratégia Nacional e Plano de Ação de Prevenção do Radicalismo e do Extremismo Violento na Guiné-Bissau (PREV-GB).

Promovido pelo projeto Observatório da Paz – Nô Cudji Paz, o encontro reuniu 62 participantes, incluindo 21 mulheres, representando instituições do Estado, organizações da sociedade civil, confissões religiosas e associações de jovens e mulheres, com o objetivo de consolidar um instrumento estratégico orientado para a prevenção, a antecipação e a mitigação dos riscos associados à radicalização e ao extremismo violento.

Num país historicamente reconhecido como mosaico étnico, linguístico e religioso, frequentemente citado como exemplo de tolerância e convivência pacífica, a iniciativa assume particular relevância face a um conjunto complexo de fatores sociais, económicos, políticos e geográficos que podem favorecer o surgimento e a expansão de movimentos radicais e violentos. A abordagem adotada assenta numa perspetiva preventiva, integrada e baseada em evidências, reconhecendo a natureza multifatorial destes fenómenos, profundamente enraizados em dinâmicas sociais, económicas, políticas e culturais.

A prevenção da radicalização exige uma resposta estruturada, articulada e sustentada no tempo, baseada na confiança entre cidadãos e instituições, e no reforço do contrato social.”

A afirmação é de Bubacar Turé, presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, na sessão de abertura do atelier, realizado na Casa dos Direitos, em Bissau. Turé destacou ainda “a importância de assegurar uma coordenação eficaz entre os diferentes níveis de governação e os atores envolvidos”.

Carlos Abaitua Zarza, adido para a cooperação – justiça, segurança, género e direitos humanos – da União Europeia, reiterou o compromisso da UE em apoiar a Guiné-Bissau “no desenvolvimento de políticas públicas orientadas para a prevenção de conflitos, a promoção dos direitos humanos e o reforço da governação democrática, privilegiando abordagens preventivas e sustentáveis”.

As fragilidades estruturais no centro da análise

Durante os trabalhos, o consultor Alfredo Handem apresentou uma análise aprofundada do contexto nacional, evidenciando “fragilidades estruturais persistentes ao nível da governação, limitações institucionais e desigualdades socioeconómicas significativas”. Entre os fatores de risco identificados, destacam-se “o desemprego juvenil, a exclusão social, a fragilidade do sistema educativo, a vulnerabilidade de determinadas comunidades e a instrumentalização dos discursos religiosos”.

Esta leitura permitiu enquadrar a estratégia “numa perspetiva realista e orientada para a resolução das causas estruturais, ultrapassando as abordagens exclusivamente reativas ou centradas na segurança”, segundo Handem.

 

Quatro eixos para uma resposta integrada

A Estratégia Nacional e Plano de Ação de Prevenção do Radicalismo e do Extremismo Violento na Guiné-Bissau (PREV-GB) estrutura-se em quatro eixos fundamentais:

  1. Promoção da inclusão;
  2. Educação, comunicação estratégica e sensibilização religiosa;
  3. Reforço do Estado de Direito, incluindo governação e políticas públicas;
  4. Resiliência social e económica.

“Estes eixos refletem uma abordagem integrada e interdependente, articulando dimensões preventivas, educativas, institucionais e de desenvolvimento”, explica Alfredo Handem.

A metodologia participativa, baseada na organização de grupos temáticos, permitiu uma análise aprofundada de cada eixo, facilitando a identificação de lacunas, a validação de prioridades e a formulação de propostas concretas e ajustadas ao contexto nacional.

 

Recomendações estratégicas

As discussões culminaram num conjunto consistente de recomendações, refletindo uma convergência significativa entre os diferentes participantes. Entre as principais orientações, destacam-se:

  • O reforço das ações de sensibilização comunitária, com enfoque para abordagens culturalmente adaptadas;
  • A capacitação contínua dos atores institucionais, comunitários e religiosos;
  • A mobilização de recursos financeiros sustentáveis, condição indispensável para garantir a operacionalização efetiva da estratégia;
  • A articulação entre os parceiros nacionais e internacionais, identificada como um fator determinante para o sucesso da sua implementação;
  • A promoção de iniciativas conjuntas entre os líderes religiosos, reconhecendo o seu papel central na construção de narrativas alternativas e na prevenção da disseminação de discursos extremistas.

No plano institucional, sublinhou-se a urgência das reformas no setor da justiça, com vista ao reforço da sua independência, eficácia e acessibilidade, contribuindo para restaurar a confiança dos cidadãos nas instituições públicas.

 

Educação, género e juventude no centro da prevenção

Ao nível da Educação, foi amplamente defendida a integração da temática da radicalização e do extremismo violento nos currículos escolares, promovendo uma educação orientada para a cidadania, os direitos humanos e a resolução pacífica de conflitos. Esta abordagem preventiva é considerada essencial para a construção de uma sociedade mais resiliente e consciente.

A promoção da igualdade de género foi igualmente identificada como uma prioridade transversal, reconhecendo o papel estratégico das mulheres na prevenção da violência, na mediação comunitária e no reforço da coesão social.

Quanto à juventude, as recomendações enfatizaram a necessidade urgente de criar oportunidades concretas de formação profissional, empreendedorismo e acesso ao emprego para os jovens, grupo particularmente vulnerável a dinâmicas de exclusão.

A ausência de perspetivas económicas foi identificada como um fator crítico de risco, exigindo respostas integradas que articulem políticas de segurança com estratégias de desenvolvimento socioeconómico.

Próximos passos

As contribuições recolhidas durante o atelier serão agora sistematizadas e integradas na versão final da Estratégia Nacional e Plano de Ação de Prevenção do Radicalismo e do Extremismo Violento na Guiné-Bissau (PREV-GB).

O documento final será publicamente apresentado a 28 de abril de 2026, no auditório do Dunia Hotel Bissau (ex-Azalai), a partir das 09h00.

Este processo participativo constitui um marco relevante na construção de uma resposta nacional coerente, inclusiva e sustentável, alinhada com os desafios contemporâneos e orientada para a promoção duradoura da paz e da estabilidade na Guiné-Bissau.


O projeto Observatório da Paz – Nô Cudji Paz é financiado pela União Europeia e cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., sendo implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH). A iniciativa visa “promover o diálogo, o trabalho em rede e o desenvolvimento de parcerias estratégicas, contribuindo para a prevenção da radicalização e do extremismo violento na Guiné-Bissau”.



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