
Stephens, W., Sieckelinck, S., & Boutellier, H. (2019). Preventing Violent Extremism: A Review of the Literature. Studies in Conflict & Terrorism, 42(5), 346-361. https://doi.org/10.1080/1057610X.2018.1543144
O combate ao terrorismo evoluiu. Já não basta apenas reagir à violência; as estratégias nacionais voltaram-se para a prevenção, criando um vasto vocabulário de “Prevenção e Combate ao Extremismo Violento” (P/CVE). Contudo, sob a bandeira unificada, esconde-se uma divisão crucial. Enquanto as abordagens tradicionais de segurança continuam a vigiar comunidades, uma nova corrente académica e prática defende intervenções de “soft power” que operam fora da lógica securitária, focando-se na educação, saúde pública e serviço social.
Uma revisão recente de 73 artigos científicos revela quatro pilares centrais nestas abordagens preventivas: o desenvolvimento do “indivíduo resiliente”, a gestão da identidade, o fomento do diálogo aberto e o fortalecimento das comunidades. A premissa é interessante: em vez de tratar os cidadãos como potenciais riscos, devemos ajudá-los a desenvolver o pensamento crítico, a empatia e os valores democráticos para que resistam à atração das ideologias extremistas.
No entanto, esta narrativa da resiliência esconde perigos subtis. Ao nos focarmos excessivamente na capacidade do indivíduo ou da comunidade para “aguentar” e “recuperar”, corremos o risco de despolitizar o problema. A resiliência, tal como é frequentemente aplicada, pode tornar-se uma ferramenta que culpa a vítima: se um jovem se radicaliza, a falha é apresentada como a falta de resiliência pessoal, ignorando as injustiças sistémicas, a discriminação institucional e a marginalização económica que, na verdade, alimentam o extremismo.
O texto analisa que, ao pedir que as comunidades sejam “resilientes”, o Estado pode estar a eximir-se da sua responsabilidade de corrigir as falhas estruturais que criam o terreno fértil para o ódio. A verdadeira prevenção não deve ser apenas a de ensinar os jovens a navegar num mar de ódio, mas sobre como drenar o oceano da desigualdade e da exclusão que o sustenta.
A solução proposta não é abandonar a resiliência, mas redefini-la. Precisamos de uma abordagem “socioecológica” que mude o foco do indivíduo para o ambiente. Em vez de apenas formar mentes críticas, devemos garantir que as instituições forneçam os recursos necessários para que a identidade se desenvolva de forma positiva e não dividida. O diálogo e a ação política são vitais, mas apenas funcionam se houver canais legítimos de expressão e se as queixas forem ouvidas, não silenciadas.
Conclusão: a luta contra o extremismo violento não será vencida apenas através de currículos escolares ou de campanhas de empatia. Exige uma coragem política para abordar as raízes da marginalização. Se continuarmos a tratar a prevenção como um exercício de fortalecimento individual, estaremos apenas a pintar um buraco, deixando a estrutura podre intacta. A verdadeira resiliência de uma sociedade mede-se não pela capacidade dos cidadãos suportarem a injustiça, mas pela sua vontade de a erradicar.
- O indivíduo resiliente
A imagem evocada pelas teorias e abordagens que se enquadram nesta orientação do «indivíduo resiliente» é a de criar indivíduos fortes, críticos ou flexíveis. As principais abordagens focam-se de várias formas em: 1. desenvolver recursos cognitivos, 2. fomentar traços de caráter e 3. promover ou fortalecer valores.
- Recursos cognitivos
Esta intervenção baseia a sua abordagem preventiva no entendimento de que uma característica comum das ideologias extremistas é o pensamento «preto no branco», no qual são feitas distinções simples entre «nós e eles», «certo e errado». Além da complexidade no pensamento, a capacidade cognitiva mais comum referida é a do “pensamento crítico”.
- Traços de caráter
A lógica subjacente a essa perspectiva parece ser que certas qualidades e traços psicológicos, como a empatia, podem ser mais fortes do que os fatores que levam os indivíduos a envolverem-se no extremismo violento. Sugere-se que, para serem capazes de cometer atos de violência contra outros seres humanos, os indivíduos passam por um processo de desumanização do «outro» — desligando-se das suas sanções morais internas normais que, de outra forma, os impediriam de se envolver em violência. Feddes, Mann e Doosje propõem que o desenvolvimento da autoestima e da empatia pode impedir que os indivíduos sejam atraídos para o extremismo violento.
- Promover/fortalecer valores
O mais proeminente nesse sentido é a noção de cidadania e direitos humanos. Davies defende uma educação abrangente em direitos humanos que influencie tanto o conteúdo quanto a ação do ensino, argumentando que os valores dos direitos humanos «promovem uma cultura inclusiva. Macnair e Frank propõem uma “batalha de ideias”, defendendo a promoção dos «valores da comunidade, tolerância e união» para contrariar o ódio e a polarização das narrativas extremistas.
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