Publicado inicialmente pelo le Grand Continent. Republicado aqui com autorização do autor: Guillaume Soto‑Mayor.

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A guerra contra o terrorismo tem sido um fracasso. A injeção de mil milhões de euros, as intervenções militares e as iniciativas de apoio impediram que se compreendesse o inimigo com que se luta. Segundo Guillaume Soto-Mayor, para alcançar a paz, é necessário estudar as causas maiores e as motivações que guiam as ações dos jihadistas.
PONTOS PRINCIPAIS
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Por mais que possam ter conhecimentos teológicos limitados, todos os jihadistas do Sahel com quem se realizou entrevistas revelaram que acreditam profundamente na dimensão religiosa do seu compromisso. Eles aderem a um movimento jihadista que se insere no âmbito de uma ação religiosa.
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Al-Qaeda possui uma mentalidade verdadeiramente estratégica, no contexto operacional e evolutivo do grupo, determinada pelo seu comando central e seguida rigorosamente pelas suas diferentes filiais ao redor do mundo. Um homem determina essa linha de ação mais do que qualquer outro: o Sheikh Ayman al-Zawahiri.
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Existem numerosas diferenças ideológicas entre a Al-Qaeda e o Estado Islâmico do Sahel, relativamente aos métodos de ação bem como aos procedimentos de dissuasão que permitem explicar os conflitos em que os dois movimentos jihadistas se envolvem desde janeiro de 2020.
Como alcançar a paz no Sahel ou na Somália, na Nigéria ou na Líbia? Com a contribuição da criação de rotas de fuga sustentáveis para conflitos de violência multifacetada, múltiplas dimensões, desafios e intervenientes, é um enorme desafio cuja dificuldade da persistente irresolução é assumida em primeiro lugar pelas populações em todo o continente africano. Uma característica comum entre as regiões geográficas acima mencionadas e a espiral de violência que as destrói, é a presença de grupos de jihadistas armados há quase três décadas, dois deles no Sahel. No entanto a estratégia de contingência desta ameaça, que combina a resposta militar e os esforços de desenvolvimento (com um desequilíbrio muitas vezes criticado), adotada pelos líderes nacionais e pela comunidade internacional, com a França como autoridade de primeiro plano no Sahel, não permitiu, até hoje, a redução da presença jihadista nestas regiões. Hesitações políticas, recuos diplomáticos e erros dos militares são sinais de fracasso na luta contra o inimigo, Al-Qaeda, que não mostra qualquer enfraquecimento. Se a presença jihadista nos territórios se tornar uma situação de facto ou se os Estados decidirem aceitar a sua presença, ou até mesmo se as comunidades considerarem estes grupos como governadores legítimos, como é que a França ou as potências estrangeiras lidarão com estas realidades? Das iniciativas de apoio à paz, da ação humanitária às estratégias militares, uma recalibração a fundo da ação externa, francesa mas também europeia, parece necessária.
Uma étapa prévia indispensável na evolução da luta anti-jihadista na África e na elaboração de novas estratégias de paz consiste na avaliação e na correção de um dos seus obstáculos principais: a interpretação errada da natureza do adversário, devido à persistente recusa da consideração da dimensão religiosa ou teológica da sua ação e do compromisso individual dos seus membros1. A facilidade intelectual e a guerra contra o terrorismo justificaram o porquê de muitas personalidades e instituições condenassem, comentassem e investissem mil milhões de euros contra os grupos, sem se preocuparem com a estrutura ou com as ações lógicas e regras de funcionamento. O combate ao jihadismo será tudo menos ideológico2, e os mujahidins, os criminosos sem fé nem lei, cujas motivações para aderir ao movimento encontrar-se-iam nos conflitos relacionados com a propriedade das terras, a discriminação étnica ou a gestão dos recursos naturais. Todos os elementos desempenham um papel fundamental na propagação da violência e da radicalização das populações, mas não são o suficiente para explicar a sucessão dos jihadistas ou a sua fixação nesses territórios. Eles não nos esclarecem sobre a natureza dos intervenientes, nem sobre a sua capacidade de criar uma adesão duradoura nas várias comunidades em diversos contextos, não nos esclarecem sobre a finalidade da utilização dos seus recursos financeiros ou da sua capacidade de liderar, monopolizar e dar um novo sentido às contestações por vezes antigas, nomeadamente no Sahel.
Para compreender a força profunda e as intenções dos jihadistas, é necessário decifrar os seus discursos, os seus modos de pensar, a visão do mundo que transmitem e implantam nos seus apoiantes. A maioria dessas informações cruciais com respeito às estratégias ou às normas de Al-Qaeda e do Estado Islâmico, estão acessíveis a todos online ou nas redes sociais. Na verdade, os ideólogos e os principais líderes jihadistas divulgam regularmente, por textos impressos ou publicados, através de áudios ou vídeos, um discurso religioso e sociopolítico que justifica a racionalidade das suas ações e que as coloca dentro de um contexto histórico e de sentido islâmico3.
No entanto, uma análise rápida deste âmbito normativo demonstra o centralismo que o dogma religioso ocupa. Da mesma forma, a escuta ou a leitura de relatos dos elementos estruturantes da trajetória dos jihadistas revela sempre uma referência a imãs e/ou ideólogos que influenciaram o seu percurso. Era verdade, por exemplo, para chefes terroristas como Osama Bin Laden (que se referia a Sayyid Qutb ou Abdullah Azzam) e Abu Musab Al-Zarqawi (que se referia a Abu Muhammad al Maqdisi). Era verdade também que os combatentes alimentavam uma veneração por um mentor religioso. Uma mulher, com dinheiro e com uma motocicleta, são incentivos atraentes para recrutamento para os homens mais jovens, mas elas são muitas vezes integradas numa justificação da própria religião (despojos de guerra, direito de ter escravos infiéis, Sab’yi). A possibilidade de aceder a novas conquistas a seguir aos fracassos pessoais é manipulada pela narrativa dos “irmãos e irmãs da Umma” que oferece o direito de renovação a todos, de forma igualitária, pouco importa a origem étnica, social ou familiar sob a égide de singularidade e o Deus todo-poderoso (tawhîd4). O mais importante é que por mais que possam ter conhecimentos teológicos limitados, todos os jihadistas do Sahel com quem se realizou entrevistas revelaram que acreditam profundamente na dimensão do seu compromisso religioso. Eles aderem a um movimento jihadista que se insere num âmbito de ação religiosa.
Um rápido retorno histórico às origens do Al-Qaeda revela que o grupo jihadista é a herança de uma visão ideológica de ação coletiva resultante dos irmãos muçulmanos e do socialismo levado por fundadores como o Sheikh Abdullah Azzam, mas também como o teórico principal da jihad moderno Sayyid Qutb. Esta visão é representada no seio do Al-Qaeda pela criação de um aparelho operacional bastante estruturado e normalizado, do qual ainda é possível observar a coerência dos modos de ação e das estratégias de conquista de poder5. Essa estrutura é incorporada pela prioridade dos órgãos de direção nas evoluções operacionais das filiais da meta-estrutura Al-Qaeda, ou até mesmo na renovação dos juramentos de lealdade (ba’yah) aos líderes jihadistas exigidos a todos os combatentes. A matriz ideológica de cada gropo jihadista é, além disso, visível através da escolha dos alvos, dos modos operacionais, até mesmo por vezes pelas datas escolhidas para passar à ação. Os jihadistas usam a associação simbólica, explicando que os alvos são raramente escolhidos aleatoriamente. Atacar um local de festa é destruir um local apóstata, um francês representa um ataque contra a França, um padre representa um ataque contra a religião católica. Da mesma forma, a centralidade das normas de utilização da violência, das estratégias de implementação territorial ou ainda os métodos de governação de cada grupo jihadista demonstram a sofisticação da matriz ideológica.
Al-Qaeda possui, assim, um pensamento verdadeiramente estratégico, no contexto operacional e evolutivo do grupo, determinado pelo seu comando central e seguido rigorosamente pelas suas diferentes filiais ao redor do mundo. Um homem determina essa linha de ação mais do que qualquer outro: o Sheikh Ayman al-Zawihiri. Al-Zawahiri juntamente com Younis al Mauritani e Abdelmalek Droukdel estabeleceram em 2002 a estratégia africana da Al-Qaeda. Num dos discursos do dia 11 de setembro de 2018, Al-Zawahiri expõe os princípios-chave da estratégia de Al-Qaeda em África, apresentada como o centro nevrálgico e a terra principal da expansão jihadista. Assim, enfatiza a necessidade do respeito pelas tradições e estruturas de poder locais, ao implementar os batalhões (katibas), incluindo as sincréticas (na primeira fase), tanto religiosas como tribais.
Promove a perseguição das forças de segurança e de defesa, nomeadamente através do uso de engenhos explosivos, uma tática seguida até hoje pela Jama’at Nasr al-Islam wal Muslimin (JNIM), ou seja, o órgão de coordenação de todas as filiais da al-Qaeda no oeste de África: Ansar dine7, Ansarul Islam8, AQMI 9, katiba Serma 10 et katiba Macina 11.
Um erro da luta anti-jihadista no Sahel e um impasse persistente nas estratégias de paz elaboradas estes últimos anos é avaliar as entidades que compõem o JNIM individualmente, e olhar para a aliança como um conjunto de unidades sem coerência ou orientação partilhada. No entanto, uma análise pelo prisma ideológico demonstra que todas as entidades que constituem o JNIM são de facto, membros de pleno direito da Al-Qaeda, cujo órgão central continua a estabelecer normas de conduta de guerra, regras de financiamento, métodos de governamento e de gestão de negócios locais que todos os katibas seguem.

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Os principais eixos ideológicos de Al-Qaeda
A centralidade da matriz ideológica de Al-Qaeda deve, então, servir como ponto de partida ao estudo deste movimento e como explicação do seu sucesso. Os desenvolvimentos a seguir oferecem uma tentativa de descodificação das principais linhas de força teológicas do ato jihadista.
O desafio principal da missão de Al-Qaeda, a saber: estabelecer normas a fim de restaurar um mundo perdido, impor a “palavra de Deus” e reunir todos os muçulmanos sob a crença da unicidade de Deus (tawhid), encontrar-se dentro dos sentidos do termo árabe “al qaeda” que pode significar a regra ou a “base de dados” (qaîdat al malimaât).
A fim de instaurar uma estrutura política única para todos os muçulmanos, “um califado bem guiado” remete ao reinado dos quatro califas (al rashidun), os ideólogos calculam que é preciso, primeiramente, transformar radicalmente a matriz de pensamento (manhaj) das populações. Assim, eles oferecem aos seus apoiantes uma base comum de lealdade e solidariedade alternativas àquelas propostas pelo mundo ímpio. Para constituir este corpus, os ideólogos do jihadismo moderno apropriam-se de métodos tradicionais da teologia através da autenticação manipulada pelos hadiths (relatos e dizeres do Profeta) e a eliminação daqueles que parecem suspeitos. A guerra das referências e das fontes de autoridade que condicionam e moldam a ação de Al-Qaeda, e sobretudo, que a justificam, é então fundamental. Numerosos testemunhos de jihadistas revelam-nos que eles seguiram uma educação religiosa entre os katibas, muitas vezes por parte do cádi ou de um veterano do jihadismo que também desempenha a função de tutor responsável pela formação ideológica dos militantes.
Esta matriz de ideais e de normas estabelecidas pelos estudiosos (ulemas), juízes (fuqaha e qadi) e os líderes dos grupos jihadistas proporciona o vínculo essencial entre os militantes: uma visão do mundo todo, coerente, acessível e onde os seus destinos se encontram no centro de uma luta messiânica e milenar. Os militantes jihadistas tornam-se então uma parte integrante de uma história que se repete continuamente desde o nascimento do Islão, de um proselitismo que só será concluído quando todo universo se submeter à religião do Profeta, até à vinda do Messias e ao fim do mundo conhecido. As referências dos mitos fundamentais, das conquistas dos primeiros califas como Uthman, Usman dan Fodio ou aquelas de Saladino, são usadas para inserir as suas lutas na linha de heróis populares na história islâmica.
Neste combate ideológico, o primeiro valor fundamental da intervenção jihadista é a interpretação do próprio tawhîd, ou a fé na unicidade de Deus e a sua proclamação através da profissão de fé muçulmana conhecida como chahâda. Deus sendo tudo e estando em todo o lado, todos os muçulmanos são iguais perante a Sua regra. É uma dimensão igualitária da matriz ideológica salafista, essencial a considerar-se para compreender o sucesso do seu proselitismo nas populações dominadas, por exemplo no centro do Mali. A centralidade na fé, tanto do tawhîd como dogma, traduz-se num princípio de ação colocado no coração do pensamento jihadista: al-wala wal-bara, lealdade absoluta e dissociação completa. De forma prática, o conceito faz com muita frequência referência a duas relações fundamentais que os jihadistas devem manter com o mundo exterior: por um lado, os não muçulmanos e, por outro lado, os muçulmanos. No primeiro caso, os muçulmanos são obrigados a romper totalmente com todos os ímpios ou infiéis, tanto a nível individual como coletivo, a abster-se de qualquer compromisso ou aliança com um não muçulmano, nem mesmo a tolerá-los15.
No segundo caso, o cumprimento deste princípio significa que não existe, no fundo, nenhuma diferença natural ou diferença social justificável. Este argumento igualitário tem um forte impacto e serve como alavanca central de recrutamento para a Al-Qaeda ao redor do mundo, perto de populações discriminadas ou sem possibilidade de ascensão social, especialmente em sociedades altamente hierarquizadas ou rígidas em relação a vantagens e posições de poder sociopolítico e económico.
Dado que o Islão é um sistema de vida completo, qualquer associação de Deus (chirk), a uma outra divindade ou crença superior (nacionalismo, socialismo, democracia, razão de Estado, racionalidade económica, etc.) e qualquer idolatria é considerada como incompatível com a unicidade de Deus e o culto que lhe deve ser prestado e combatido. Na prática, significa excluir do Islão todas as escolas de crenças não ortodoxas, como o sufismo, acusadas de serem politeístas, bem como todas as práticas que possam suscitar divisões ou discórdias dentro da fé (fitna), como a lealdade tribal-étnica, cujo respeito está condicionado à adoração a Deus. Significa, também, rejeitar a democracia e todos os poderes laicos, capitalistas, nacionalistas ou socialistas que são deslegitimadoras, vistas como sistemas de pensamento ignorante e decadentes, ou corrompidas moralmente (fasâd), e também anti-islâmicos por substituírem Deus por outro poder, o da lei dos homens. Os valores ocidentais, os direitos do Homem e a segurança global são descritos como mitos cujo respeito pelos tiranos locais, corrompidos com o contacto com estas ideias, levou a Umma à decadência e à facilidade de opressão. Aplicada ao governo em vigor, a um indivíduo ou a uma comunidade muçulmana governada por outras leis que não as de Deus, ou considerada como um obstáculo a estas (especialmente no caso do Estado Islâmico), uma excomunhão por acusação de incredulidade (takfir) pode ser decidida, tornando a entidade apóstata e, portanto, um alvo legítimo do jihadismo armado17.
Um segundo aspeto fundamental da matriz ideológica jihadista é que a sua visão do mundo sempre foi dividida em dois campos antagonistas, o bem e o mal, a verdade e a mentira, os bons fiéis (sadeqeen) e os maus caçadores e o resto do mundo. Os cruzados do passado são os exércitos ocidentais de hoje, enquanto os ditadores e governantes “tirânicos” dos países muçulmanos, que seguem uma lei diferente da de Deus (a dos homens), são comparados aos faraós da antiguidade. Toda a intervenção é enquadrada num contexto messiânico global, o combate contra uma mesma opressão, os mesmos opressores que são combatidos por todos os muçulmanos ao redor do mundo e isto desde as origens do Islão. Assim, fica evidente quando Ahmed Abdi Godane, líder do Harakat al-Shabaab al-Mujahideen na Somália e próximo da Al-Qaeda, anunciou em junho de 2009 a sua vontade de lutar “até que os muçulmanos libertem Jerusalém” e precisou que os combates em curso em Mogadíscio “se desenvolvessem entre as forças de Allah e os elementos cuja intenção é estabelecer a democracia e as teorias judaicas”18. O líder do Katiba Macina Amadou Koufa sublinha, também, a conexão entre a opressão sofrida pelos muçulmanos no Mali e o no resto do mundo num texto de 201719. Esta homogeneidade da Umma e dos seus inimigos convida os jihadistas a procurar a unidade e a ultrapassar as distinções nacionais, étnicas e linguísticas na sua luta.
Eles acreditam que apenas um esforço armado e violento, mas também de libertação espiritual, o jihadismo, é considerado como uma resposta adequada para libertar todas as comunidades muçulmanas do domínio dos seus opressores e levá-las de volta à prática da «verdadeira religião». O compromisso jihadista é então apresentado não só como uma luta ideológica, mas como uma simples prática da verdadeira religião20. O mártir e o combate pela defesa do caminho de Deus são projetados na fé como uma obrigação individual (fard’ayn) que incumbe a cada muçulmano válido e como uma obrigação coletiva (fard kifâya) de uma elite de fiéis que são responsáveis pelo destino da Umma que alivia os outros muçulmanos21.
As ideologias do jihadismo definiram assim a ocupação das terras muçulmanas por um inimigo longínquo (principalmente da “coalização dos cruzados”) e de um inimigo próximo (poder laico autoritário ou taghut) como sendo a principal justificação do jihadismo armado. A violência tornou-se indispensável na resposta a esta agressão numa terra do Islão e para combater a injustiça sofrida pelas populações22. Sobretudo defensiva, através da libertação dos territórios do Islão e a sua “purificação” pela imposição de uma soberania islâmica (hâkimiyya), este jihadismo pode também tornar-se agressivo, atacando ou «levando o medo» ao país dos infiéis. No Sahel, o primeiro inimigo foi sempre a França e os seus aliados, sendo o inimigo longínquo priorizado pela doutrina da Al-Qaeda central. Como anunciado por Amadou Koufa para justificar o jihad que a Katiba Macina praticou: “A França não está em guerra com nenhum fula, bambara, dogon, sonrai, mas somente com aqueles que decidiram exercer a vontade de Allah (…). São os seus homens de confiança, que lhe juraram lealdade, que ocupam os lugares (nos tribunais)! A nossa luta é direcionada contra esses tribunais, contra essa legislação, contra essa prática, que erradicamos para voltar ao statu quo ante” 24. Da mesma forma que a retirada das tropas francesas no Mali foram celebradas como uma vitória dos mujahidins no Sahel.
Autor de elementos estruturais da sua matriz ideológica, é notório que a Al-Qaeda é capaz de um ecumenismo retórico excecional e que mobiliza referências religiosas e históricas muito variadas. Tal como a Al-Qaeda, o Estado islâmico procura, de facto, unir sob a sua bandeira todas as insatisfações e todos os esforços revolucionários dirigidos contra os governos e a comunidade internacional. Da crise dos Rohingyas na Caxemira, da Somália à Síria, do Iémen ao Mali ou no debate sobre o hijab na França, os líderes jihadistas utilizam assim a atualidade para denunciar uma ordem mundial, muitas vezes tingida de retórica conspiratória, e para destacar o suposto cerco à Umma, as injustiças e a violência que ela sofre. Além disso, as causas pacíficas e consensuais servem de argumentos de recrutamento, como a defesa do “bem coletivo”, a luta contra uma “invasão estrangeira”, “a luta contra a corrupção”, a justiça social ou ainda “o direito dos povos à autodeterminação”. Ao desenvolverem um discurso consensual que legitima a violência (defesa contra uma agressão, defesa da liberdade de um povo, etc.), os líderes da jihad querem ser vistos como políticos e não como bandidos sanguinários. A subtileza retórica do JNIM, a sua capacidade de direcionar uma mensagem às populações locais e aos povos ocidentais, por exemplo sobre a necessidade de usar o poder democrático para fazer pressão aos líderes corruptos para assim acabarem com uma invasão dispendiosa de uma terra do Islão, é ilustrado num comunicado após um ataque contra um comboio militar francês a janeiro de 2021 no Hombori, no centro do Mali:
“A França está a pagar o preço da sua arrogância e invasão. É a culpada por aceitar o escárnio do profeta e as restrições impostas aos muçulmanos com políticos oficiais do Estado ao invés de impedir os jornalistas ateus de troçar tanto com Issa quanto com Moisés. A França tenta impedir a governação islâmica no Sahel (…) o JNIM decidiu alertar os muçulmanos, incentivando a jihad contra a França, relembrando os seus massacres desde a campanha do Egito e lembrando que a animosidade contra a França está enraizada em todos os muçulmanos. Diz-se ao povo francês: vocês são os primeiros a pagar o preço com a morte das vossas crianças através da qualidade de vida causada pelos milhares de milhões que deveriam ter sido gastos no combate ao desemprego… Apelamos-vos a fazer pressão para a retirada da terra muçulmana do Mali, para deixar o povo maliano livre para escolher o seu próprio modo de governar, que será sem dúvida a xaria. Como gostam de liberdade nos vossos países, nós também gostaríamos de viver livres do nosso país e de decidir o nosso destino.

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Normas do uso da violência e da governação do Al-Qaeda no Sahel
Todas as ideologias principais de Al-Qaeda, de Sheikh Abdullah Azzam a Ayman al Zawihiri, defendem uma utilização moderada da violência e uma atitude conciliatória com as populações locais, inserida numa estratégia transversal de endogeneização da jihad 27. Numa situação de guerra, primeiro que tudo, as circunstâncias em que se usa a violência devem ser explicadas às populações, e devem ser oferecidas uma possibilidade de rendição e de conversa. A violência é proibida em casos de rendição pacífica. É também proibido matar civis desarmados, aqueles que não combatem o Islão ou que não fazem parte do perigo (notavelmente mulheres e crianças). O vandalismo e o roubo são limitados a circunstâncias precisas e a lugares considerados anti-islâmicos. Tortura e mutilação de cadáveres é proibida. Ordena-se o respeito, acima de tudo, pela paz ou pelo cessar-fogo. O saque de guerra deve, em primeiro lugar, servir a causa de Umma, ou seja, a perpetuação da jihad, dando um outro sentido à predação vista de forma limitativa como criminosa, quando a sua finalidade aqui é claramente ideológica. Os prisioneiros devem ser mantidos vivos e tratados com dignidade e se possível, trocados por dinheiro. Com algumas diferenças entre os seus diferentes membros, é evidente que o JNIM e todos aqueles que o compõem integram-se perfeitamente no âmbito operacional estabelecido pelo Al-Qaeda central.
Em tempos de paz, ordena aos mujahidins ao redor de todo o mundo para se aproximarem das populações que eles protegem, e guiá-las para o Dawa (a aprendizagem dos fundamentos da religião), para a prática do Islão “purificado”. A fim de ganhar o respeito e a confiança das populações, também é dado instruções para oferecer serviços às comunidades muçulmanas através de trabalhos de caridade. Como Osama Bin Laden afirma: “the key is keeping the sympathy of Muslims towards us” 28. A luta deve estar sempre próxima do povo e das suas preocupações e sofrimentos, é preciso, então, organizar o tempo de diálogo e lições públicas (dourous). Se o povo é inculto, criado num ritual sufista como no Sahel, os mujahidins são instruídos a demonstrar tolerância em relação a certas práticas e tradições, a tolerar o que é proibido (jawâz mâ lâ yajûz) e a facilitar a consolidação da jihad. Esta causa superior merece essas concessões, uma mobilização o mais ampla possível das populações locais e uma pedagogia de longo prazo29.
Se as oposições e tensões com as populações locais, por exemplo a crítica sobre as práticas sincréticas (casamentos ou cerimônias tradicionais) que podem ocorrer, al-Qaeda sabe por experiência própria que a organização, para se estabelecer num determinado espaço, terá de lidar com códigos sociais e religiosos em constante mudança, marcados por inúmeras rivalidades políticas e entre fações, que são sempre cuidadosamente analisadas pela sua liderança. No Sahel, estes locais são caracterizados por uma fraca presença do Estado e uma quase abstinência dos serviços públicos, uma ilegitimidade dos representantes públicos e um clientelismo enraizado. A aceleração das alterações climáticas e as suas consequências pensam seriamente nas comunidades, a escassez de recursos disponíveis acentua todas as formas de tensão. Neste espaço saheliano, as associações religiosas, os imãs, e os sábios religiosos (ulemás) desempenham um papel importante e antigo de regulação da sociedade. Marcado nos anos 90 pelo ativismo das associações proselitistas salafistas estrangeiras e nacionais, o espaço saheliano passou nessa por um grande movimento de adesão a práticas religiosas fundamentais acompanhado de uma construção identitária e de um questionamento das autoridades tradicionais como únicas autoridades e fontes de transmissão do conhecimento30. O início do Ocidente, a corrupção do Estado, a passividade do organismo religioso perante as injustiças socioeconómicas ou ainda os esquemas de poder nepotista são todos seriamente postos em causa e justificam, aos olhos de muitos, o recurso ao Islão como força reguladora de toda a sociedade, da sua educação, economia, justiça, etc.
Essas reivindicações e constatações refletem claramente os fatores que levam à adesão aos grupos jihadistas, sem, no entanto, significar o apoio das populações a toda a sua matriz ideológica, nomeadamente à justificação e à aplicação da jihad armada ou ainda à sua visão do takfir. Como Morten Bøås e Francesco Strazzari sublinham, os jihadistas vão propor um novo contrato social 31. No Sahel, os diferentes filiais da Al-Qaeda apoiam-se nessas transformações sociais, nessas novas normas e construções identitárias, e retomam as tradições guerreiras e de desconfiança em relação ao Estado central. Eles defendem, em aplicação da doutrina da Al-Qaeda central, uma defesa da terra e da honra das populações muçulmanas32. As comunidades sahelianas vão, então, tolerar a presença jihadista, ou até apreciá-la, nomeadamente se ela responder às suas necessidades imediatas, algo que une todas os filiais da Al-Qaeda. A oferta de serviços que o JNIM disponibiliza às populações é transversal. Eles prestam um serviço de justiça descentralizado, apreciado pela população, nomeando juízes islâmicos (o chefe local ou um marabu respeitado) em todas as aldeias sob o seu controlo. Esta oferta de justiça e resolução de litígios é uma das bases da sua influência nas zonas onde o Estado é ausente. Além disso, de acordo com os pedidos locais, o JNIM pode também colocar um polícia islâmico (hisba) responsável por controlar o respeito pela lei islâmica (código de vestimenta, cumprimento das orações, luta contra o roubo, etc.). Segundo o investigador Boubacar Ba, nas regiões deltas, a katiba Macina também controla, desde 2017, a gestão dos recursos naturais. Ela fixa as regras da transumância e da entrada e da saída de animais na Delta, nomeadamente a tarifa das taxas municipais (acesso aos pastos) que não devem exceder os quinhentos mil francos CFA , isto é, setecentos e sessenta euros33. No plano humanitário, após a cobrança do imposto islâmico (zakat), as famílias pobres recebem a sua parte do imposto arrecadado e pequenas infraestruturas são financiadas.
Na aplicação da doutrina da sede, o JNIM estabelece certas normas no que diz respeito à violência nos espaços governamentais cujo nível de restrição, em especial, ilustra tanto a sofisticação quanto a sua capacidade de imersão num ambiente sociorreligioso habitual34. É assim notório que no Sahel o nível de violência nas zonas sob o controlo jihadista varia consoante a (in)experiência dos jihadistas a governar35, dependendo das zonas e das populações afetadas, mas é sempre inscrito pelos juristas da Al-Qaeda num quadro regulador comunitário36. De acordo com as instruções dos líderes da Al-Qaeda, essas regras são sempre enunciadas e explicadas às populações locais. Esta integração da jihad, tanto no respeito pelos costumes locais como num âmbito de ação transnacional, confere uma dupla legitimidade às suas decisões. Assim, quando a AQMI iniciou a sua intervenção no norte do Mali, receberam o consentimento a favor do jihad defensivo de uma vintena de ulemás respeitados e de especialistas da jurisprudência islâmica (fuqaha) com base no argumento de que o Estado oprimia as populações e provoca discórdia entre os muçulmanos (fitna37). O objetivo das normas aplicadas por JNIM também se encontram dentro da perspetiva da violência contra os civis38.
No âmbito do direito à guerra (fiqh al harb), o JNIM recorreu à execução de pessoas (civis e militares) acusadas de colaborar com as forças antiterroristas, por exemplo no Talataye no Mali em 202039. Nos territórios que Al-Qaeda rege em tempos de paz, os desvios dos costumes ou outras regras estabelecidas também podem levar a punições violentas, que vão desde castigos físicos até à pena de morte. A recusa de uma vila ou de uma comunidade de aplicar as ordens, ou qualquer suspeita de espionagem, se seguido de advertências que, sem feito, podem conduzir às punições que vão desde o embargo (como a Dialloubé em 2018 ou Farabougou em 2020) à execução do chefe ou até mesmo de todos os homens da vila. As regras da jihad estabelecidas pela Al-Qaeda e pelo JNIM aplicam-se, por fim, aos estrangeiros não combatentes presentes na zona, nomeadamente os trabalhadores humanitários que podem ser autorizados a exercer a sua atividade num perímetro negociado num âmbito normativo do aman, ou seja, a proteção em terra islâmica40.
A coerência ideológica e a estrutural das diferentes filiais da Al-Qaeda com as instruções da sede encontram-se também no funcionamento das relações inter e intra katiba em que se baseia, como no Afeganistão, nos organismos de decisão consultivos (shuras) e no comité consultivo (majlis al-shura). Estes comités mantêm uma disciplina interna forte. Ferdaous Bouhlel e Yvan Guichaoua sublinham então que, numa tática de fixação territorial, “os líderes tradicionais locais então muitas vezes incluídos nos organismos de decisão, nas shuras, nos tribunais islâmicos e nos conselhos consultivos dos katibas41”. Além da consultoria dos líderes locais, Al-Qaeda pode delegar-lhes funções de governação, nomeadamente justiça comum. É também entre as figuras locais respeitadas que Al-Qaeda escolhe os líderes dos katibas e, por essa lógica, a direção do JNIM foi confiada a Iyad ag Ghali, um respeitado líder de guerra maliano, em vez de ser confiada a um líder argelino. Este raciocínio jihad endógeno aplicado pelo al-Qaeda no Sahel, encontra-se também na divisão operacional da Al-Qaeda nos grupos étnicos do Sahel, do Ansar Dine (Tuaregues), da Frente de Libertação do kativa Macina (Fulas) e da katiba Sèrma (Fulas do Gourma). Trata-se de uma escolha tática pensada para aproximar os diferentes filiais da Al-Qaeda das populações, das suas dificuldades, ideias e reivindicações. Perfeitamente organizadas entre eles, cada grupo terá o seu papel, por exemplo, o Ansar Dine, um jihad defensivo restringido à zona do Kidal, aplicará as regras decididas em concertação com os representantes das comunidades locais.

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Uma guerra ideológica entre Al-Qaeda e os Estado Islâmico do Sahel
Os conflitos entre Al-Qaeda e o Estado Islâmico, ao redor do mundo e de África, não se podem resumir só a rivalidades. É essencial analisá-los a nível ideológico, pois não têm as mesmas regras em relação à violência ou ao diálogo com as autoridades locais. Todas as estratégias de paz, todas as comunicações em volta das negociações com os grupos jihadistas ou uma nova estratégia de ajuda para o desenvolvimento, devem assim analisar com cautela as consequências destas guerras e a possibilidade de conduzirem à agravação da violência contra as populações civis e os trabalhadores humanitários.
As diferenças teológicas sobre o uso da violência entre os grupos jihadistas são antigas. Os ideólogos e os chefes da Al-Qaeda, nomeadamente Osama bin Laden, numa carta a Ayatollah al Libi, em 2002, critica os ataques indiscriminados realizados por certos líderes do movimento contra os civis, pois são injustificados do ponto de vista religioso e representam uma violência desnecessária e contraprodutiva, uma perda de recursos e apoios para os jihadistas, criando discórdia entre os muçulmanos42. Em 2005, ao aplicar estas orientações aos combatentes do jihad, o líder da Al-Qaeda no Iraque e a inspiração do futuro Estado Islâmico, Ayman Al Zarqawi, organizou a execução de reféns estrangeiros, explicando que preferia degolar os infiéis que roubam o dinheiro. As ideologias da Al-Qaeda criticaram-no, pois consideram que a violência excessiva pode alienar a opinião pública43.
Tal como a sede, o Estado Islâmico na África Ocidental (EIAO) e o antigo Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS) recorrem a atos violentos de forma mais permissiva em termos de justificação religiosa do que o JNIM. O seu principal argumento é uma aplicação total, sem concessões, da luta pela implementação rigorosa do tawhîd. A fim de alcançar esse objetivo, o uso da violência é considerado proporcional àquela que os verdadeiros crentes e a “verdadeira religião” sofreram. Todos os inimigos do Islão devem, então, ser combatidos, incluindo civis, e a aplicação do takfir é muito mais ampla do que a defendida pela Al-Qaeda. Nenhuma tolerância ou aliança com comunidades, autoridades ou grupos armados considerados desviantes é tolerável nem deve ser tolerada. Numa lógica semelhante, a 15 de agosto de 2020 o Estado Islâmico, no seu jornal semanal, declarou as organizações humanitárias e os seus funcionários como alvos legítimos, pois acusados de proselitismo (cristão, laico, democrático ou socialista) e espionagem, representariam perigos para o Islão. Nestes últimos anos, o EIAO sequestrou e matou vários trabalhadores humanitários do norte da Nigéria, nomeadamente funcionários da ACF e do IRC 44.
Como retratado pelos ataques recentes da região do Ménaka no Mali ou do Tillabéri no Níger, os procedimentos de dissuasão são muito mais radicais, podendo em certos casos levar à execução imediata de dezenas de pessoas e ao uso do terror de cenários de atos de decapitação. A 21 de dezembro de 2018, o vídeo do EIGS, intitulado como “a punição dos traidores”, mostrava sete pessoas decapitadas 46. A 26 de dezembro, o JNIM fez circular uma mensagem na qual condena tal violência, exigindo ao EIGS “explicações que possam justificar tal crueldade”. Da mesma forma, em 25 de abril de 2020, o EIAO divulgou um vídeo da execução de um militar chadiano ajoelhado, no estilo das execuções do Estado Islâmico no Levante. Essa violência indiscriminada baseada num takfîr que consideram pervertida e as execuções imediatas contra civis são severamente criticadas pela Al-Qaeda.
Nas mensagens transmitidas a 9 de maio e a 6 de outubro de 2016 pelo grupo mediático oficial da Al-Qaeda, o emir Ayman al-Zawahiri denuncia as transgressões ideológicas e os desvios estratégicos do seu rival, o emir EI Abu Bakr al-Baghdadi e o seu o seu afastamento do «método profético» 47. No vídeo de 6 de outubro, denuncia a sua campanha de difamação contra a Al-Qaeda e critica severamente o uso indiscriminado do takfir contra todos os muçulmanos que se recusam a aderir à sua causa e invalidam a sua visão do Islão, incluindo contra os mujahidins da Al-Qaeda Acusados de extremismo, os soldados do Estado islâmico conhecidos como “takfiri khawaridj” são descritos como sanguinários, criando uma divisão entre os mujahidins e, consequentemente, favorecendo os seus inimigos em comum. Numa mensagem a janeiro de 2017, al-Zawihiri denuncia mais uma vez a campanha de difamação e as mentiras de al-Baghdadi a respeito da Al-Qaeda. Todos os líderes da Al-Qaeda ao redor do mundo seguirão uma linha semelhante de crítica ao Estado Islâmico, especialmente na África Ocidental, denunciando os excessos da ação violenta indiscriminada das províncias do Estado Islâmico, promovendo simultaneamente uma unidade do jihad global e uma aplicação da sharia mais próxima das reivindicações das populações sunitas. Ao contrário da instauração imediata de um califado, o objetivo militar declarado como prioritário é conduzir uma estratégia de esgotamento e assédio das forças ditas “ocupantes” das terras do Islão, tanto nacionais como estrangeiras, a fim de defender as populações. É uma estratégia de longo prazo que se opõe às ações inoportunas e que procura ganhar o coração e o espírito das populações locais.
Em resposta, desde o final de 2019, o Estado Islâmico critica severamente as orientações ideológicas adotadas pelo JNIM em vários textos de propaganda divulgados localmente por mensagens de áudio ou através dos seus meios de comunicação oficiais. Em abril de 2020, a província iemenita do Estado Islâmico publicou através da agência de notícias Amaq um longo vídeo em que a gerência do AQMI do norte do Mali em 2012 e os seus supostos acordos com as milícias e o governo são denunciados como sinais da hipocrisia da sua luta religiosa 49. Do mesmo modo, num panfleto chamado “a Cruzada contra a África Ocidental” publicada a maio de 2020 no jornal semanal al Naba, o Estado islâmico acusa “a milícia Al-Qaeda” e os líderes Iyad ag Ghali e Amadou Koufa de apostasia, um crime que, aos olhos deles, merece a morte. Assim, eles denunciam atos de traição tanto contra eles próprios como contra as populações muçulmanas ao fazerem a paz com os movimentos armados e facções apóstatas do norte do Mali, mas também ao aceitarem negociar com o governo maliano e servirem os interesses do governo argelinos e mauritanos50. Por meio desses “compromissos”, eles acusam-nos então de comprometer com a aplicação rigorosa do tawhîd e com a defesa das populações muçulmanas.
Implementadas no Sahel, estas divergências religiosas tiveram consequências práticas, já que justificaram a oposição entre a katiba Macina e a katiba Sèrma que conduziu no fim de 2019 e início de 2020 à adesão de um terço dos seus membros, nomeadamente do chefe militar Hammadoun Mamoudou, também conhecido como Mek Daadou, ao EIGS liderado por Abdel Hakim al Saharaoui. Seduzidos pelas vitórias do EIGS na Burkina e no Mali, os demissionários da katiba são recetivos à propaganda sobre três pontos essenciais destacados num texto redigido por Mek Daadou em dezembro de 2019: a promessa de acesso gratuito às bourgoutières do Delta com base no argumento da aplicação rigorosa do tawhîd; uma distribuição mais justa dos espólios de guerra; o fim da tolerância às práticas desviantes dos chefes tradicionais (em relação à escola pública ou ao voto democrático, nomeadamente) ou aos compromissos com grupos armados locais. Estas diferenças ideológicas eram e ficavam consequentemente mais essenciais para explicar os conflitos entre os dois movimentos jihadistas desde janeiro de 2020 até aos dias de hoje.

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Negociações com os jihadistas, uma verdadeira saída?
Se a negociação com os grupos jihadistas é apresentada como uma saída aos conflitos e uma alavanca para restabelecer a paz, ou até mesmo como uma forma de estabilidade social, ela não poderá ser refletida através de uma grelha analítica tecnocrática, determinada por tabelas de pontos, perímetros e agentes do diálogo. É necessário estabelecer antecipadamente sobre em que fundamentos ideológicos os grupos jihadistas negociam, segundo que normas, com que interesses e ambições e com qual objetivo se recomenda reunir quais instituições. Todas as negociações implicam, na verdade, procedimentos, normas, a utilização de ferramentas e símbolos específicos bem como a participação de profissões especializadas. É suposto cada instituição descobrir uma identidade diplomática considerada como legítima para se responsabilizar pela questão litigiosa. Nesse sentido, como indica Fred C. Iklé, a recusa de negociar com um agente representa um ato político 52. Os Estados normalmente recusam negociar com os terroristas, pois isso validaria esses indivíduos como seus iguais perante o cenário internacional. Além disso deste reconhecimento mútuo, o sucesso das negociações depende muitas vezes dos compromissos aceites pelas duas partes, da semelhança da representação idêntica do conflito e da utilização de uma linguagem e âmbito comum de negociação, ou seja, no mínimo, uma compreensão do quadro ideológico no qual cada um dos intervenientes irá interpretar e conduzir as negociações.
Neste contexto, antes de apoiar um diálogo com os “bons” jihadistas do Sahel como antítese e solução óbvia para a opção militar de resposta à sua progressão 54, é indispensável estudar a natureza desses grupos, a sua estrutura, as suas reivindicações, compreender os seus interesses e a sua conceção (religiosa e pragmática) da negociação. É, primeiramente, muito claro que ao ver os elementos ideológicos explicitados anteriormente que será, provavelmente, impossível negociar com o EIGS ou EIAO. O início de um processo de negociação com a Al-Qaeda pode contribuir para a radicalização de certas franjas jihadistas, consolidando com a propaganda do Estado Islâmico que acusa do JNIM e os seus líderes de hipocrisia e de compromissos com o Estado 55. Se as negociações com a Al-Qaeda avançarem, será necessário determinar uma figura representante para negociar entre o JNIM e observar os seus objetivos nessa negociação. É também essencial enunciar que, contrariamente ao processo de Alger, nenhuma negociação pode se fazer além dos termos religiosos ou sem os próprios termos religiosos, e somente aqueles considerados legítimos pela Al-Qaeda e pelo Estado. A matriz ideológica constituirá, de facto, a principal linguagem, o quadro limitativo e o horizonte do diálogo possível com os jihadistas. Neste âmbito, como todos outros elementos da matriz ideológica do JNIM, é imposto pela Al-Qaeda central aos líderes da jihad no Sahel.
Assim, o centro histórico da Al-Qaeda exclui qualquer possibilidade de negociação e repete que reforça que não pode haver diálogo ou negociação com os ocupantes, a não ser pelas armas. Para a Al-Qaeda a negociação é uma arma, uma etapa tática para consolidar as suas posições e mostrar-se atento às populações que supostamente defendem. De acordo com as instruções de al-Zawahiri, aceitar uma negociação, como no Sahel, contribui para a “manobra de desgaste” e o assédio prolongado implementados pela Al-Qaeda contra os Estados da região. Na medida em que os mujahidins do JNIM não visam tomar o poder ou tornar-se autónomos, mas questionam a própria existência do Estado moderno, as hipóteses de sucesso de uma negociação são mínimas, pois não reconhecem o Estado e os seus representantes como interlocutores legítimos.
Se alguns ainda duvidavam, a suposta autonomia de decisão dos líderes locais do jihad saheliano foi recusada quando em 2012 e no fim de 2020, Iyad ag Ghali declarou-se pronto para a paz e que é severamente punido pela liderança argelina da AQMI. Este último recorda-lhe que a sua lealdade deve permanecer, em primeiro lugar, à jihad e à luta pela instauração da lei islâmica, antes da defesa dos interesses tribais ou patrióticos, considerados fontes de divisão no seio da umma. Lembra-se, então, que está pronto a negociar o cessar das hostilidades em troca do compromisso de Bamako para instaurar a sharia em todo o país e da proclamação na Constituição de Mali de carácter islâmico do Estado. Condições que sabe perfeitamente que são inaceitáveis para o Estado maliano e que permitirão a ag Ghali atribuir a responsabilidade por este fracasso às autoridades. O mesmo se aplica às condições prévias para o diálogo, cujo princípio é, aliás, formalmente aceite, estabelecidas no comunicado n.º 152 do JNIM intitulado “Relativo aos apelos às negociações” de 8 de março de 2020, publicado por Az-Zallaqua Foundatin, Iyad ag Ghali57.
Em qualquer negociação geral que leva a uma paz hipotética, o objetivo do JNIM é promulgado com clareza: a (re)organização de toda a sociedade maliana consoante as leis islâmicas, nomeadamente através da instauração da lei islâmica (sharia) como lei central e a inscrição na Constituição de princípio jihadistas como al wala wa el bara a fim de desenvolver um contexto restritivo que proíbe religiosamente qualquer colaboração com países não muçulmanos e que obriga a defender o território em caso de uma agressão inimiga. Deseja também um reconhecimento da educação islâmica e uma rejeição da educação ocidental e da laica. As concessões que os Estados estão dispostos a fazer serão da sua escolha e responsabilidade. É certo, porém, que toda negociação se desenvolve num determinado equilíbrio de forças e que este último é claramente favorável aos jihadistas em termos operacionais e de adesão popular nas zonas governadas pelo JNIM. Somente as negociações à escala micro-locais visam o cessar-fogo temporário, permitindo que o acordo de pactos de não-agressão ou que a obtenção de cedências dos jihadistas sobre a abertura de escolas ou sobre a vestimenta de uma cerimónia parece alcançável. Como mostram as negociações iniciadas para pôr fim ao bloqueio em torno da aldeia de Farabougou, no Mali, essas negociações parecem, no entanto, conduzir sempre a um reforço do domínio dos jihadistas.
A análise de uma solução negociada sob o prisma da matriz ideológica, seguida pelos jihadistas, incita, então, a uma precaução maior quanto ao seu uso e recomendação. As consequências podem ser, de facto, negativas, dentro das condições atuais e para a instrumentalização que os jihadistas fazem que contribuem, somente, para o aumento de poder destes últimos. Uma nova estratégia de ação estrangeira, qualquer iniciativa de dar apoio à paz, de ajudar com o desenvolvimento, de ação militar, deverá ser levada em conta o âmbito e as motivações de adesão ideológicas que fazem força aos grupos jihadistas.
FONTES 1https://www.jeuneafrique.com/mag/900102/politique/tribune-terrorisme-au-sahel-cest-en-brousse-que -tout-se-joue/ ;https://www.documentation.ird.fr/hor/fdi:010078774 ;https://www.chathamhouse.org/sites/default/files/2021-03/2021-03-02-response-jihadist-groups-sahel perouse-de montclos.pdf;https://www.ifri.org/sites/default/files/atoms/files/pellerin_violence_armees_sahara_2019 _002.pdf.↑
2 A ideologia será entendida a seguir como a formulação mais ou menos rigorosa de uma atitude em relação a um ambiente sociopolítico e normativo, afetando tanto o espaço privado e público. A ideologia oferece um caminho interpretado e condicionado para o que seja desejável. Necessita de uma construção social, pode ser totalizante/não inclusiva.↑
3 Este comunicado pode ter um objetivo tático ou de inscrição da ação do grupo numa “metanarrativa” tanto histórica como planetária.↑
4 Dentro do vocabulário jihadistico é encarnado pela expressão el qarabat e hassaba, não pelas relações ou pelos estados, nada é mais importante do que a relação com Allah.↑
5 Desde os inícios da ação jihadista na sua base do Pexauar, Maktab al Khadamat (escritório dos serviços) foi dividido em uma secção militar, uma secção administrativa, uma secção de partida e ainda uma secção de treinamento criada com o consentimento do emir dos mujahidins afegãos Abd al-Rassoul Sayyaf. ↑
6https://kyleorton.co.uk/2018/09/11/al-qaeda-leader-says-america-is-the-main-enemy/ #more-6105↑
7 Grupo jihadista composto principalmente por tuaregues e ativo na região de Kidal, no norte do Mali. Liderado por Iyad Ag Ghali, também líder do JNIM, e por Siddane ag Hitta. ↑
8 Grupo jihadista burquinense composto principalmente de Fulas e de Bellas. Liderado por Jaffar Dicko, Ansarul Islam está ativo em toda a Burkina Faso.↑
9 Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, denominação atual da antiga katiba al-Furqan. Ativo principalmente na região do Timbuktu e Taoudenni, dirigida por Talha al-Libi.↑
10 Grupo jihadista composto principalmente por fulas na região do Gourma no Mali mais também por Songhai. É ativo da região do Liptako-Gourma e da Burkina Faso.
11 A Frente de Libertação da Macina, também conhecida como Katiba Macina. Dirigée par Amadou Kouffa, Liderado por Amador Koufa, está presente no Mali, em toda a região do Mopti, do Ségou, do Kayes ou do Sikasso e de forma crescente no Burkina Faso e no Norte de todos os países do Golfo da Guiné.↑
12 Por exemplo, desde a sua criação, Ansardine, ou pelo seu nome verdadeiro “Harakat Ansar ad-Din as- Salafiyya” ou “Grupo dos Defensores Salafistas da Religião”, ou A katiba Macina foi efetivamente colocada sob os cuidados da Al-Qaeda. Como fez alguns anos mais tarde, quando criou o JNIM, o líder Iyad ag-Ghali refere-se explicitamente ao apoio do Sheikh Ayman al-Zawahiri e enquadra a atividade do grupo jihadista na continuidade da visão estratégica do líder da Al-Qaeda.↑
13 Por exemplo, citam frequentemente a história do Jihad ou da Surat al Tawba para justificar o uso da jihad pelos verdadeiros fiéis para lutar contra os inimigos do Islão.
14 Arslan Ahmed & Bilal Zafar Ranjha, Salafising Barelwiyat : Salafi Doctrine of Al Wala’ Wal Bara and TLP Politics in Pakistan, Journal of Research in Humanities, Vol 46-2 (2020), pp. 139-164↑
15 O Estado Islâmico interpreta este conceito como uma ausência totalde compromisso ou tolerância, enquanto o al-Qaeda pode aceitar as relações com os não crentes, se não impedirem a jihad e a aplicação da lei carismática na terra do Islão. A Al-Qaeda interpreta este conceito como a necessidade de não fazer nenhum compromisso com a classe dominante muçulmana, apoiantes do Ocidente, e seus aliados estrangeiros.↑
16 As Nações Unidas é também considerada como uma instituição ateia, vista como a continuação do domínio ocidenta nos países muçulmanos através de, por exemplo, operações de preservação da paz decididas pelo Conselho de Segurança, a divulgação dos direitos do Homem e de sistemas educativos “an-islâmicos”. No Mali, os ataques contra a MINUSMA são descritos como vitórias contra os “invasores”. ↑
17 A surata A examinada, Alcorão 60/4, é um versículo citado frequentemente no discurso salafista como uma uma ordem para aplicar o takfir, e as escrituras do sábio Hanbalite Ibn Taymiyya são muitas vezes citados por esse propósito.↑
18 Christopher Anzalone, « Insurgency, Governance, & Legitimacy in Somalia : A Reassessment of Harakat al-Shabab al-Mujahideen, its Rhetoric & Divisions », al-Wasat blog, December 6, 2010.↑
19“Os ativistas islâmicos são detidos em todos esses países árabes, do Maghreb à Arábia. (…) Somos perseguidos no Bamako, na Arábia, nos Emirados no Catar e ao redor do mundo todo”. Transição de Boubacar Ba da mensagem em fulani de Hamadoun Koufa direcionada a Pullaku a 21 de agosto de 2017.↑
20 Excertos de Abdullah Azzam, La Défense des territoires musulmans et Rejoins la caravane, in Kepel G., Hegghammer T., Lacroix S, Milleli J-P. et Saghi O. (2008), Al-Qaeda no texto, PUF, Paris.↑
21 Waja Khusro Tariq, « Lessons From Islamic History : Ibn Taymiyyah and the Synthesis of Takfir », em Huffington Post, 31 mai 2016↑
22“Não cederemos um centímetro do nosso território comum, o nosso país comum a todos nós” . Transição de Boubacar Ba da mensagem em fulani de Hamadoun Koufa direcionada a Pullaku a 21 de agosto de 2017.↑
23 AQAP elogia JNIM por vingar insultos ao profeta através de ataques às forças francesas↑
24 Transição de Boubacar Ba da mensagem em fulani de Hamadoun Koufa direcionada a Pullaku a 21 de agosto de 2017.↑
25https://ent.siteintelgroup.com/Jihadist-Threat-Statements/handwritten-messagesattributed-to-jnim-official-express-triumph-in-french-withdrawal-from-mali-warning-to opposition-group.html↑
26 https://twitter.com/Rita_Katz/status/1346494123470159874↑
27 Kepel G., Hegghammer T., Lacroix S, Milleli J-P. et Saghi O. (2008), Al-Qaida dans le texte, PUF, Paris.↑
28 https://ctc.westpoint.edu/wp-content/uploads/2013/10/Letter-from-UBL-to-Atiyatullah-Al-Libi-4-Translati on.pdf↑
29 Kepel G., Hegghammer T., Lacroix S, Milleli J-P. et Saghi O. (2008), Al-Qaida no texto, PUF, Paris.↑
30 Bouhlel Ferdaous. « At-tawba, expérience mauritanienne de redéfinition de la violence « légitime » : Entre repentance, médiation et exercice fiqhi en matière de jihad », in Rouppert, Bérangère (coord.) Sahel : Éclairer le passé pour mieux dessiner l’avenir. GRIP, 2013↑
31 Morten Bøås & Francesco Strazzari (2020) Governance, Fragility and Insurgency in the Sahel : A Hybrid Political Order in the Making, The International Spectator, 55:4, 1-17, DOI : 10.1080/03932729.2020.1835324↑
32 Bouhlel F. (2020). (Ne pas) dialoguer avec les groupes « jihadistes » au Mali ? : Entre contradictions normatives, « manqués » de la médiation … et nécessité heuristique. Rapport d’étude de cas. Berlin : Fondation Berghof.↑
33 Esta decisão foi tomada contra os interesses dos Diowro (proprietários dos campos) que testemunham o seu poder a diminuir mas que preferiram cooperar em vez de perder tudo.↑
34 Um antigo membro da Al-Murabitun confessou-me que eram aplicados controlos internos muito rigorosos, com punições severas para qualquer desvio da linha de conduta em relação às populações locais.↑
35 O governo do norte do Mali constituiu, em 2012, um laboratório de experiências cujos erros identificados serviram de aprendizagem e não se repetiram até hoje.↑
36 Se as punições houdouds, ou seja, ordenadas por Deus por atos que vão contra a sua Lei, e os castigos corporais não forem considerados como estando em conformidade com os costumes, podem ser restringidos na sua utilização ou mesmo proibidos, como foi o caso na região de Kidal em 2012.↑ 37 Ferdaous Bouhlel & Yvan Guichaoua (2021) : Norms, Non-combatants’ agency and restraint in jihadi violence in northern mali, International Interactions, DOI: 10.1080/03050629.2021.1898954↑
38 Entrevista de Yahyâ Abû al-Humâm no livro de Abou Ma’ali : Abou Elma’ali M-M, Al Qaida wa houlafaouha fi Azawad, Aljazeera Center of Studies, Doha, 2014, (en árabe).↑
39 Num vídeo de novembro de 2016, intitulado como “Os traidores 2” AQMI coloca em cena a execução de vários indivíduos acusados de traição a benefício das forças armadas malianas e francesas. Como sempre, as acusações são baseadas em justificações religiosas, enunciadas, neste caso, por Abou Abderrahmane al-Sanhaji, na época cadista da AQMI para o emirado do Saara.↑
40 Ferdaous Bouhlel & Yvan Guichaoua (2021) : Norms, Non-combatants’ agency and restraint in jihadi violence in northern mali, International Interactions, DOI: 10.1080/03050629.2021.1898954↑
41 Ibid.↑
42 https://ctc.westpoint.edu/wp-content/uploads/2013/10/Letter-from-UBL-to-Atiyatullah-AlLibi-4-Translation.pdf↑
43 http://www.recherches-sur-le-terrorisme.com/Documentsterrorisme/abdallah-anas.htmlfa↑
44 Bridget Johnson, « ISIS declares humanitarian aid workers are legitimate targets », 18 agosto 2020, HStoday.us↑
45 https://mali24.info/insecurite-la-menace-de-leigs-a-menaka/↑
46 Bouhlel F.. (2020). (Ne pas) dialoguer avec les groupes « jihadistes » au Mali ? : Entre contradictions normatives, « manqués » de la médiation … et nécessité heuristique. Rapport d’étude de cas. Berlin : Fondation Berghof.↑
47 Discurso analisado por Delphine Byrka, Expect Consulting : The Muslim Nation gathered around this group in Sham, realizing the difference between its correct ideology and the false ideology of the new extremist, takfiri khawarij. » e « The path of dawa and jihad to establish and rule by the Sharia, and striving to establish the Caliphate upon the Prophetic methodology and not the Caliphate of Ibrahim Badri (ie. al-Baghdadi). The Caliphate upon the correct methodology and not the Caliphate of al-Hajjaj ibn Yusuf »↑
48 Excerto dos discurso de 6 de outubro de 2016 traduzido por Delphine Byrka, Expect Consulting : « From among these who are trying to split the ranks of the Mujahideen, is the group led by (Abu Bakr Baghdadi) who have become worse than the Khawaarij. They did not become content by just making Takfeer on the Muslims and the Mujahideen for actions which do not invalidate their Islam, rather they have made Takfeer on them for actions which are actually righteous actions ».↑
49 Raafat Lina, « the Schism of Jihadism in the Sahel : How Al-Qaeda and the Islamic State are Battling for Legitimacy in the Sahelian Context », MEI, 13th October 2021↑
50 Análise elaborada em 2020 pela especialista em ameaças à segurança no Sahel Delphine Byrka, Expect Consulting.↑
51 Transcrição feita por Boubacar Ba de uma mensagem de janeiro de 2020 de Abou Mahmoudou chamado de Mobbo Mahmoudou, ex-líder jihadista próximo de Hammadoun Koufa, que acabara de se separar da katiba Macina.↑
52 Fred Charles Iklé (1964), How Nations Negotiate. New York, Harper & Row.↑
53 Bouhlel F. (2020). (Ne pas) dialoguer avec les groupes « jihadistes » au Mali ? : Entre contradictions normatives, « manqués » de la médiation … et nécessité heuristique. Rapport d’étude de cas. Berlin : Fondation Berghof.↑
54 International Crisis Group, « Mali : créer les conditions du dialogue avec la coalition jihadiste du GSIM », Rapport Afrique n°306, 10 dezembro de 2021, p. 15.↑
55 Denúncia da negociação iniciada pela Al-Qaeda pelo EI no n.º 233 da revista Al Naba publicada em maio de 2020.↑
56 http://www.recherches-sur-le-terrorisme.com/Documentsterrorisme/abdallah-anas.htmlfa↑
57 « Concernant les appels à la négociation », al-Zallaqa Media Foundation, 8 março de 2020.↑
58 International Crisis Group, « Mali : créer les conditions du dialogue avec la coalition jihadiste du GSIM », Rapport Afrique n°306, 10 dezembro de 2021, p. 15.↑
