As principais denominações religiosas incluindo a religião tradicional na Guiné-Bissau querem transformar a sua secular convivência num mecanismo institucional de Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento (PREV), bem como para a promoção da paz e da coesão social.
Na quarta-feira, 11 de fevereiro, às 09h00, a Casa dos Direitos acolhe o Atelier de apresentação do Fórum dos Líderes Religiosos e o lançamento do livro Vozes pela Paz: Diálogo Inter-religioso e Prevenção da Radicalização e Extremismo Violento na Guiné-Bissau.
Pela primeira vez, representantes do Islão, do Cristianismo (católico e protestante) e das religiões tradicionais africanas assinam formalmente um compromisso público para criar um fórum permanente de concertação — não como estrutura burocrática, mas como um mecanismo ágil de resposta a tensões emergentes.
O projeto Observatório da Paz – Nô Cudji Paz adotou uma abordagem centrada na prevenção, baseada em estratégias e ações informadas e proactivas, que ultrapassassem as abordagens meramente reativas e securitárias.
Com uma intervenção multidimensional e integrada, o Observatório seguiu uma abordagem em cascata, trabalhando diretamente com diversos atores sociais e políticos para a promoção de mudanças sociais, designadamente com os líderes religiosos das comunidades islâmicas, da igreja católica, das igrejas protestantes, e da religião tradicional animista na Guiné-Bissau.
Seria ainda em 2022 que seria lançado o I Encontro Nacional de Reflexão de Líderes Religiosos para a Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento, reunindo mais de 50 líderes religiosos entre os quais imames, padres e pastores para discutir e analisar, entre outras temáticas: a dimensão e as consequências do radicalismo e do extremismo violento no mundo e na África Ocidental em particular, exemplos de boas práticas de diálogo inter-religioso na ótica da prevenção, e a importância da adoção de estratégias conjuntas e de uma agenda comum para a paz, de modo a fazer face às ameaças deste fenómeno na Guiné-Bissau. Na sequência desse encontro foi assinada a Agenda Comum dos Líderes Religiosos para a promoção da paz, prevenção do radicalismo e extremismo violento na Guiné-Bissau.
Desde então, no decurso de mais de 46 iniciativas (ações de formação, encontros ou djumbais, seminários) com mais de 4.200 participantes, dos quais 47,7% são mulheres, abrangendo para além dos líderes religiosos, associações juvenis, associações de mulheres, os media locais com enfoque nas rádios e TV comunitárias, e 35 oficiais da administração pública, o Observatório trouxe para a ordem do dia a importância do diálogo para a coesão social e convivência pacífica em prol da PREV. Formou agentes comunitários, inclusive mulheres e jovens, para a deteção precoce do radicalismo e extremismo violento (REV) e publicou 2 estudos (Estudo e Policy Paper), 91 programas de rádio com 364 emissões, 1 sítio na internet dedicado – Observatoriodapaz.org, e 2 relatórios analíticos.
Mais importante foi o contributo para a elaboração da Estratégia Nacional e Plano de Ação para a PREV na Guiné-Bissau.
Assim, ao longo de 4 anos, quer ao nível do discurso político e do pronunciamento de vários decisores do Governo da Guiné-Bissau ao mais alto nível, quer a nível da sociedade civil, nomeadamente, a nível dos líderes religiosos, a temática da PREV foi amplamente apresentada, estando hoje a sociedade mais consciente dos desafios e da necessidade do alerta precoce e da promoção da coesão social e da paz.
Na Guiné-Bissau, este diálogo não surge como uma inovação programática, mas como a sistematização de um património sociocultural secular. Diferentemente de contextos onde a coexistência religiosa é frágil ou recente, o país apresenta uma tradição histórica de harmonia entre muçulmanos (cerca de 45% da população), cristãos (22%) e os praticantes das religiões tradicionais africanas (33%) — estatísticas que, contudo, não capturam a realidade mais profunda: a interpenetração ritual e familiar dessas tradições no quotidiano comunitário. Os estudos antropológicos (Vigh, 2009; Bâ, 2018) documentam como, em muitas aldeias guineenses, as cerimónias de iniciação tradicional coexistem com as práticas islâmicas ou cristãs na mesma família, sem tensão identitária — um modelo de sincretismo funcional raramente observado na África Ocidental contemporânea.
Esta resiliência cultural torna-se estratégica num contexto regional marcado pela expansão do extremismo violento no Sahel. Enquanto países vizinhos enfrentam desafios crescentes de radicalização, a Guiné-Bissau mantém-se como exceção notável, cuja blindagem social reside precisamente nesta arquitetura informal de diálogo quotidiano — agora ameaçada por dinâmicas transnacionais de polarização.
É precisamente por iniciativa dos líderes religiosos que o evento do dia 11 de fevereiro é reservado para a apresentação pública do Fórum dos Líderes Religiosos. Nesse dia, ainda no quadro do Observatório da Paz, é apresentado ao público o livro Vozes pela Paz e Tolerância – Diálogo Inter-religioso e Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento na Guiné-Bissau. Numa edição coordenada por Bubacar Turé e João Monteiro com o apoio de Lassana Cassama, a publicação reúne testemunhos de diversas personalidades guineenses, a saber: Abulai Djaura, Aissato Camara Indjai, Aladje Infali Coté, Aladje Suleimane Baldé, Denise Ercília Cabral dos Santos Indeque, Elisa Tavares Pinto, Fernando Mandinga da Fonseca, Ismael Pedro da Silva, José Lampra Cá, Mateus Malu, Mussa Sani, Saico Embaló e Silvina Tavares.
Com um prefácio da anterior Ministra da Justiça e Direitos Humanos da Guiné-Bissau, Dra. Maria do Céu Silva Monteiro, o livro contém uma resenha história do surgimento e evolução do diálogo inter-religioso a nível mundial e em seguida parte para uma análise do quadro legal da liberdade religiosa na Guiné-Bissau bem como das iniciativas emergentes de diálogo inter-religioso no país.
O Observatório da Paz associou-se à realização da 12.ª edição da Quinzena dos Direitos (2 a 14 de fevereiro de 2026), programa que assinala o aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos com cerca de vinte iniciativas sobre a proteção dos direitos humanos, a democracia e a cidadania.
A Quinzena dos Direitos é organizada pelo consórcio Casa dos Direitos — integrado pela ACEP, AMIC, LGDH, RENAJ, RENARC, RENLUV e Tiniguena — em parceria com mais de 30 organizações nacionais e internacionais. O programa visa democratizar o acesso ao conhecimento sobre direitos, debater a sua efetiva concretização e reforçar a colaboração entre sociedade civil e Estado para a harmonia social.
Convite
Num mundo onde a instrumentalização política da religião ameaça a convivência democrática, a Guiné-Bissau oferece uma lição empírica: a harmonia inter-religiosa não é utopia, mas uma tecnologia social comprovada — quando respeitamos a sabedoria das comunidades e institucionalizamos os seus mecanismos informais de resiliência.
Este encontro reunirá líderes de todas as confissões religiosas da Guiné-Bissau, constituindo um momento de forte simbolismo e relevância nacional, ao reafirmar o compromisso comum com a convivência pacífica, a tolerância religiosa e a promoção de uma cultura de paz.
Atelier de Apresentação do Fórum dos Líderes Religiosos e do Livro “Vozes pela Paz
📅 Quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026 | ⏰ 09h00
📍 Casa dos Direitos, Bissau
🔗 Integrado na 12.ª Quinzena dos Direitos (2–14 fevereiro 2026)
O Observatório da Paz – Nô Cudji Paz, é implementado desde 2022 pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH) — com o financiamento da União Europeia e o cofinanciamento do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P.










