O Sahel em 2025: Opções Políticas – Discurso do Diretor de África da Chatham House
Dr. Alex Vines – Diretor de África da Chatham House
13 de março @ Bissau Royal Hotel | Workshop – Diálogo sobre Segurança e Democracia na África Ocidental: Reflexões e Caminhos para a Ação
Uma iniciativa promovida pelo Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos da República da Guiné-Bissau em parceria com o Observatório da Paz.
Agradeço a todos a Vossa presença, particularmente aqueles que estão em jejum.
De igual forma, agradeço ao IMVF e à Liga a oportunidade que me concederam para vir à Guiné-Bissau – esta é a minha primeira viagem a este país de gente muito acolhedora.
O meu nome é Alex Vines, sou o Diretor para África da Chatham House, um instituto de políticas independente em Londres com 103 anos de história. O meu instituto é reconhecido por ter recebido ao longo dos anos decisores políticos mundialmente famosos, como o Mahatma Gandhi, o Nelson Mandela, o Sekou Toure, Eduardo Mondlane, e Leopold Senghor, por exemplo. O Che Guevara escreveu para nós. Relativamente à Guiné-Bissau – recebemos alguns representantes especiais da ONU, como o João Honwana, o David Stephen e José Ramos Horta. Um reconhecido bissauguineense, Carlos Lopes, é um dos nossos associados.
Temos vivido tempos mais concorridos estes dias. Na semana passada, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Nigeriano discursou na Chatham House sobre a sua visão da política externa. Ontem, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Gabão esteve na Chatham House a explicar a contagem decrescente para as eleições presidenciais de abril e o regresso do Gabão a um governo constitucional.
Somos conhecidos no seio da diplomacia pela famosa “Regra de Chatham House”. Significa que se pode registar o que foi dito, sem nunca referir quem o disse, como forma de proteção da anonimidade.
A CEDEAO está prestes a celebrar o seu 50.º aniversário – porém 3 estados membros, os estados Aliança dos Estados do Sahel (AES) – Mali, Burkina Faso e Níger, saíram no mês passado. Este não é o momento adequado para a CEDEAO ou parceiros como a União Europeia reduzirem ainda mais o seu envolvimento nesta região. Existe um perigo de transbordo do flagelo do terrorismo no Sahel para os Estados costeiros, incluindo a Guiné-Bissau e, necessariamente, também para a Europa. Tal como o caso da Ucrânia, o que acontece ali vai atingir os países parceiros, como Portugal e a França, entre outros.
Vemos a ameaça causada pelo terrorismo e, por conseguinte, a necessidade de se atuar para a prevenção do radicalismo e extremismo violento, numa ótica centrada no diálogo com a sociedade civil. O combate à migração ilegal, é outra ameaça que requer uma resposta concertada. Assistimos igualmente a uma feroz competição pelos recursos económicos, como o acesso a minerais estratégicos e críticos, como o petróleo e o gás natural, de modo a se conseguir diversificar o fornecimento, impedindo a Rússia ou a China de dominarem também estas cadeias, e agora, também os EUA a entrarem nesta corrida. Por conseguinte, a região da África Ocidental tornou-se num centro de competição geopolítica mundial.
O Policy Paper, Documento de Orientação de Políticas, produzido no quadro do Observatório da Paz, com o título Opções de Resposta Política para a Crise de Segurança e Democracia na África Ocidental, destaca que os decisores políticos europeus precisam de repensar o seu envolvimento regional e bilateral, mas também de se envolverem a longo prazo nesta região com paciência estratégica.
Este Policy Paper já foi apresentado em Bruxelas no Serviço Europeu para a Ação Externa (EEAS), na Argélia com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa junto do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, em Washington junto do Departamento de Estado; e finalmente agora fazê-mo-lo em Bissau, no Bissau Royal Hotel – por isso hoje sinto-me em casa aqui, um hotel real, porque o patrono do meu Instituto, a Chatham House, é o Rei Carlos III.
A Guiné-Bissau está inserida no seio de uma vizinhança violenta. O Sahel é a crise humanitária e de segurança que mais cresce no mundo. Tornou-se o epicentro do terrorismo internacional, bem como dos golpes de Estado mas quem sofre diretamente esse custos são as suas próprias populações.
De acordo com o Índice Global de Terrorismo de 2025[1], a região do Sahel continua a ser o centro principal do terrorismo, respondendo por mais de metade de todas as mortes por terrorismo no mundo. O Burkina Faso foi o país mais afetado, com um aumento de 68% nas mortes, mesmo que os ataques tenham diminuído em 17%. Também estão a aparecer novos grupos jihadistas, como o Lakurawa, na região de Sokoto, na Nigéria.
A tendência tem vindo a crescer há uma década – estive em Argel, capital da Argélia, no mês passado, a discutir este assunto junto do Centro Antiterrorismo da União Africana, sedeado nessa cidade. Em 2022, o Sahel registou mais de 43% das mortes por terrorismo no mundo, enquanto em 2007 (15 anos antes), a percentagem era inferior a 1%. Não pode haver complacência.
Segundo a ONU, existem atualmente 7 milhões de pessoas deslocadas na região, e pelo menos 49,5 milhões de pessoas na região estão a enfrentar uma escassez crónica de alimentos. Os choques climáticos e a insegurança contribuíram para a crise, e a região deverá atingir uma população de 500 milhões de habitantes até 2035. Por exemplo, o Níger tem a idade média mais baixa do mundo, com apenas 15,1 anos.
::: Contexto
A insegurança alastrou-se à maior parte da região do Sahel, na África Ocidental, principalmente após a intervenção militar de 2011 na Líbia. A região enfrentava já uma fragilidade agravada por uma convergência de desafios, incluindo as alterações climáticas e demográficas e as falhas de governação que impediam o desenvolvimento equitativo e o crescimento económico. Hoje tornou-se o epicentro global dos golpes de Estado e do terrorismo, com o surgimento ou ressurgimento de conflitos comunitários, insurgências e a multiplicação de milícias.
A região do Sahel é composta por onze estados, todos eles entre os vinte países menos desenvolvidos do mundo, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano. As alterações climáticas estão a alterar os equilíbrios socioeconómicos e os cenários de segurança em todo o lado, mas mais rapidamente na África Ocidental do que a média global.
A África Ocidental é também a região com as populações mais jovens e de crescimento mais rápido do mundo. Em 2020, a população regional já ultrapassava os 400 milhões, com projeções a apontar para mais de 500 milhões entre 2030 e 2035. Cerca de 80% da população vive com menos de 2 dólares por dia, e 7 milhões de pessoas encontram-se deslocadas internamente devido à insegurança e aos impactos das mudanças climáticas, tornando a pobreza uma realidade amplamente disseminada na região.
Estes desafios contribuíram para o surgimento de um conflito baseado na identidade. É correto afirmar que a região alberga um arco de instabilidade que se estende do Oceano Atlântico ao Mar Vermelho, com conflitos armados e crises multidimensionais que continuam a ter impacto no Sudão, no Chade, na Líbia, no Níger, no Burkina Faso, na Guiné-Conacri, no Mali e no Saara Ocidental.
Um choque inesperado para a região ocorreu em janeiro de 2024, quando as juntas militares do Burkina Faso, Mali e Níger anunciaram a sua decisão de abandonar a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e criar uma nova aliança rival, a Aliança dos Estados do Sahel (AES). Acusaram o bloco regional de estar sob influência de potências estrangeiras e de constituir uma “ameaça” à soberania destes três países sem litoral. A CEDEAO, que celebra o seu 50º aniversário em 2025, viu oficialmente a saída do Mali, Burkina Faso e Níger em 29 de janeiro de 2025.
Embora o organismo regional tenha concedido um período de reflexão de seis meses após a retirada formal desses Estados, durante o qual podem reconsiderar a sua reintegração, é pouco provável que isso ocorra no curto prazo. Esses países enfrentam graves ameaças à segurança interna, com grupos terroristas a controlarem partes significativas dos seus territórios. Além disso, há riscos crescentes de expansão dessa instabilidade para os Estados costeiros da África Ocidental, o que aumenta as preocupações regionais.
Estes conflitos terroristas transcendem as fronteiras nacionais e ameaçam uma estabilidade mais ampla na África Ocidental e fora dela. Isto torna a estabilidade dos Estados costeiros, incluindo a Guiné-Bissau, mais estratégica para a Europa. Isto também significa que os governos precisam de pensar regionalmente, e não isoladamente.
Os incidentes terroristas espalharam-se para sul e oeste, em direção à costa da África Ocidental. Vários incidentes ocorreram desde 2021 no norte da Costa do Marfim, Gana, Togo e Benim. Desde 2022, registou-se um aumento de 250% de acontecimentos violentos cometidos por grupos islâmicos militantes num raio de 50 km dos estados costeiros vizinhos dos países do Sahel. No Benim, registaram-se ataques jihadistas contra os seus militares – mais de 120 oficiais militares beninenses foram mortos entre 2021 e dezembro de 2024.
Embora estes grupos sejam frequentemente caracterizados como pertencentes a uma das duas principais bandeiras: JNIM (Jama’at Nasr al-Islam wal-Muslimin, significa “Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos”), afiliada da Al-Qaeda, e ISGS (Islamic State in the Greater Sahara, significa Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos no Grande Sahara). A Al-Qaeda conseguiu unir quatro grupos diferentes de diferentes origens étnicas e interesses regionais numa única coligação de combatentes extremistas. O JNIM é hoje composto por militantes das tribos tuaregues e fulanis do Sahel e do Magrebe, bem como por árabes étnicos do Burkina Faso.
Estes grupos são responsáveis por mais de três quartos dos acontecimentos violentos e fatalidades associadas registados no Burkina Faso nos últimos cinco anos (2019-2024). Como referido anteriormente, de acordo com o Índice Global de Terrorismo de 2024, o Burkina Faso sofreu o pior impacto do terrorismo, com as mortes a aumentarem 68%, apesar ataques terem diminuído em 17%.
No entanto, os militantes sahelianos são mais uma expressão dos conflitos locais do que de jihadismo internacional. Exploram questões locais, como a competição por recursos naturais cada vez mais escassos nas zonas rurais, a fraca representação política nos Estados pós-coloniais e as perspetivas económicas anémicas. Estão também profundamente envolvidos no crime organizado e beneficiaram do rapto de cidadãos locais e estrangeiros. A procura pelo controlo dos ativos mineiros artesanais, especialmente do ouro, tornou-se um fator particularmente importante (um eco das insurgências motivadas pelos diamantes nos estados da União do Rio Mano, há 20 anos). A demografia também contribui, uma vez que cerca de 65% da população combinada do Burkina Faso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger tem menos de 30 anos e procura uma vida melhor.
::: Indústrias Extrativas
Apesar disso, a região espera algum crescimento económico, com as estimativas a aumentarem de 3,2% em 2023 para 4% em 2024 e 4,4% em 2025. Estes números são auxiliados em 2024 pela produção e exportação de hidrocarbonetos que entrarão em funcionamento. Prevê-se um forte desempenho económico para o Níger, o Senegal e a Mauritânia. A Nigéria e o Gana também têm uma produção significativa de petróleo. É uma das regiões com maior potencial de energia renovável do mundo, especialmente capacidade de produção solar, mas atualmente cerca de metade dos 362 milhões de pessoas que vivem na região do Sahel não têm acesso a eletricidade. Contudo, grande parte dessa capacidade solar só será aproveitada com segurança reforçada.
A mineração na África Ocidental é significativa, especialmente a bauxite, o ouro, o minério de ferro, o urânio e os diamantes, destinados às cadeias de abastecimento globais. A Guiné-Conacri, por exemplo, tem as maiores reservas de bauxite do mundo, tendo sido responsável por metade da produção global de exportações de minério de alumínio em 2020. A Guiné-Conacri e a Mauritânia são também dois dos maiores produtores de minério de ferro do mundo e o Níger é um produtor de classe mundial de urânio. O lítio também se tornou de interesse crescente com uma mina operacional no Mali e em breve no Gana e prospeção na Costa do Marfim. Em 2011, a África Ocidental tornou-se o centro da mineração de ouro africana quando a produção total de ouro da região ultrapassou a da África do Sul. Enquanto a produção das minas de ouro tem vindo a diminuir em todo o mundo, a produção na África Ocidental tem vindo a crescer.
No entanto, em muitos casos, estas indústrias extrativas transformaram-se em economias de enclave, gerando segurança e rendimentos concentrados nas mãos de elites políticas que frequentemente não os redistribuem para promover o desenvolvimento ou beneficiar as populações mais pobres. Além disso, observa-se uma crescente tendência de nacionalismo dos recursos na região. As detenções de mineiros internacionais no Burkina Faso e no Mali em 2024, bem como a apreensão de 3 toneladas de ouro de uma empresa mineira canadiana no Mali no início de 2025 ilustram o ambiente desafiante para os negócios internacionais nesta área.
Em resumo, é fundamental continuar a apoiar os esforços regionais da CEDEAO, bem como as iniciativas de segurança sub-regionais, como a Força Multinacional Conjunta da Bacia do Chade (MNJTF). Projetos de prevenção do extremismo violento em estados vulneráveis, como o Benim, a Guiné-Bissau e o Togo, desempenham um papel crucial. Recomendo vivamente o estudo[2] realizado no quadro do Observatório da Paz, sobre a Guiné-Bissau, o qual oferece insights valiosos para abordar esses desafios.
::: Resposta internacional
A resposta política internacional centrou-se principalmente na formação das forças armadas locais. Parte do problema tem sido a implementação paralela de múltiplas iniciativas, muitas vezes descoordenadas. Houve uma tendência para os segmentos da população perderem a confiança nos seus governos e os Estados frágeis transformaram-se em Estados débeis, com um nível de apoio popular às juntas militares a assumir o controlo do Sahel. Estas juntas afastaram-se posteriormente dos parceiros tradicionais como a ONU, a UE, os EUA e, mais notavelmente, da França, e estão ativamente a forjar novos laços com Estados que a junta do Mali rotulou de “Parceiros Sinceros” – a China, a Rússia, a Turquia e o Irão – para consolidar o seu controlo sobre o poder.
A Rússia deixou claro o seu desejo de preencher o vazio de segurança resultante. Em setembro de 2021, a junta maliense fechou um acordo de segurança com o Grupo Wagner para o envio de 1.000 pessoas para o Mali. A Rússia também entrou num acordo de segurança e contrainsurgência com o Burkina Faso no final de 2023 e com o Níger no início de 2024; e está a procurar um acordo com o Chade, envolvendo frequentemente o sucessor da Wagner, o Corpo de África, que no final deste mês absorve completamente a Wagner e está a remodelar-se para se tornar na Legião Estrangeira Russa – com sede na Líbia. O representante da Rússia no Conselho de Segurança descreveu os golpes no Mali, Níger e Burkina Faso como uma reação às “tentativas de continuar a impor modelos neocoloniais aos Estados africanos” e sublinhou que estas três nações “se tornaram a vanguarda dos países dispostos a combater o terrorismo transafricano” e, por isso, merecem apoio internacional.
Se houver um cessar-fogo na Ucrânia, devemos esperar maior envolvimento da Rússia na África Ocidental, mas isso não será na ótica desenvolvimentista.
::: Resposta dos EUA sob Trump
Sob a administração Trump, a ameaça terrorista no Sahel passou a ser vista em Washington como um risco crescente para o flanco sul da Europa, embora não representasse uma ameaça imediata para os EUA. Contudo, o que mais preocupa atualmente é que a região se tornou um palco de competição geopolítica, com disputas pelo controlo de recursos naturais e influência política.
Abordar as preocupações dos Estados costeiros da África Ocidental foi uma resposta de curto prazo. Em abril de 2022, o então Presidente, Biden anunciou que os EUA dariam prioridade às parcerias com países como Benim, Costa do Marfim, Gana, Guiné e Togo, no âmbito da Estratégia dos EUA para Prevenir Conflitos e Promover a Estabilidade (SPCPS). Nesse contexto, os militares norte-americanos estão a explorar novas opções, incluindo a renovação de um aeródromo no Benim e o posicionamento de ativos de vigilância na Costa do Marfim, como parte dos esforços para mitigar ameaças emergentes.
Os militares norte-americanos estabeleceram duas bases no Níger em 2016. Contudo, em março de 2024, a junta militar do Níger solicitou o encerramento dessas instalações e a retirada total das tropas norte-americanas. Esta decisão surgiu após uma reunião em Niamey, durante a qual altos funcionários dos EUA levantaram preocupações sobre a possível contratação de forças russas pelo Níger e relatos de que o Irão estaria interessado em adquirir matérias-primas no país, incluindo urânio. A junta do Níger acusou os EUA de adotarem uma “atitude condescendente” e de fazerem “ameaças de represálias” durante as negociações. Em resposta, os militares norte-americanos concluíram a retirada das bases AB201 e AB202 em agosto de 2024, com cerca de 1.000 efetivos a abandonarem o território nigeriano.
Em contraste, os EUA retiraram cerca de 70 militares das Forças Especiais do Chade em abril de 2024, antes das eleições presidenciais do país, após um pedido da presidência chadiana. Em setembro de 2024, o Comando dos EUA em África confirmou que tinha chegado a um acordo com o Chade para o regresso de um pequeno contingente de forças especiais dos EUA.
A abordagem dos EUA ao Sahel desde 2002, embora excessivamente militarista, foi ainda mais complicada pela redução drástica dos programas da USAID durante a administração Trump, que desmantelou parte significativa das iniciativas de assistência humanitária e desenvolvimento no continente africano. Essa decisão criou uma lacuna crítica na assistência humanitária e em intervenções relacionadas com a segurança humana, áreas essenciais para combater as causas profundas da instabilidade na região, como a pobreza, a marginalização e falta de governança eficaz.
::: Resposta Europeia
A França reconhece que falhou politicamente no Sahel, apesar de afirmar que a sua intervenção militar impediu a criação de um califado islâmico radical na região. Agora, o foco é apoiar os Estados costeiros por meio de formação e cooperação. As bases militares francesas restantes no Senegal e na Costa do Marfim serão desativadas, e as últimas tropas francesas deixaram o Chade no final de janeiro.
A União Europeia (UE) está a avaliar como intensificar o seu envolvimento na região, trabalhando com outros países e promovendo parcerias bilaterais. Exemplos incluem a Itália no Níger, possíveis iniciativas britânicas no Mali e o papel do Representante Especial da Hungria no Chade. O bilateralismo ganhará mais destaque, com atenção especial em usar fundos de forma estratégica e focada.
A prevenção é considerada a melhor abordagem, e a Europa tem interesse direto no sucesso dessas iniciativas. A África Ocidental é uma região próxima e estratégica para a Europa, ao contrário dos EUA, Rússia, China ou Irão, embora esteja também no radar da Turquia, que tem aumentado a sua presença na área, incluindo em Bissau.
::: Epicentro do Golpe
Entre 1960 e 2000, registaram-se em média quatro tentativas de golpes militares por ano em África. De 2000 a 2017, esse número diminuiu para menos de metade, mas voltou a crescer a partir de 2020. Desde então, ocorreram nove golpes militares bem-sucedidos, além de pelo menos outras nove tentativas falhadas, predominantemente em estados francófonos e concentrados no que foi apelidado de “cinturão de golpes” saheliano. Esta onda de golpes agravou a instabilidade política e colocou em evidência a fragilidade dos sistemas constitucionais na África Ocidental.
Esta onda de golpes foi motivada por múltiplos fatores. Os estados africanos já sofriam com os impactos da covid-19 e uma lenta recuperação pós-pandemia, choques das alterações climáticas, aumento da insegurança alimentar, instabilidade política, fraco crescimento global e taxas de juro elevadas. Todos os Estados afetados pelo golpe na África Ocidental são também conhecidos por instituições fracas e são também classificados como Países Menos Desenvolvidos (PMD). Mas, apesar destas semelhanças, os recentes golpes em África assumiram uma série de formas diferentes.
Apesar da diferença nas circunstâncias e nas motivações para os golpes, parece estar a emergir um “manual golpista” cada vez mais familiar que se aplica à maioria dos casos. Em primeiro lugar, os líderes do golpe reivindicam um mandato popular para as suas ações, citando preocupações com a responsabilização ou a defesa da soberania contra a interferência neocolonial. Seja real ou alegado, os golpistas tentam então alavancar este apoio popular para negociar períodos de transição cada vez mais longos.
O plano é claro: encenar um golpe, prometer uma transição, mas alargá-la o mais possível e, eventualmente, realizar eleições – com os próprios líderes do golpe como candidatos, aproveitando a vantagem da titularidade.
O principal desafio político é, portanto, garantir um calendário de transição focado que evite recompensar os líderes da junta a longo prazo. Respostas inconsistentes da comunidade internacional em geral corroeram ainda mais as normas antigolpe. Os interesses estratégicos fizeram com que os EUA construíssem relações tensas, mas pragmáticas, com o novo governo militar no Níger, e a UE também se mostrou dividida sobre como responder, com a Itália e a Espanha a defenderem o envolvimento contínuo devido às preocupações com a migração, em contraste com a França, que queria uma linha mais dura.
Um relatório do PNUD de 2023, intitulado “Soldados e Cidadãos: Golpes Militares e a Necessidade de Renovação Democrática em África”, apresentou as conclusões de um amplo inquérito de percepções que envolveu 5.000 cidadãos africanos dos países afetados por golpes militares, nomeadamente Burkina Faso, Chade, Guiné-Conacri, Mali e Sudão. O estudo destacou três principais constatações.
A primeira é uma preferência pela democracia e um desejo de ver uma redefinição do contrato social. Os cidadãos estão claramente a sentir o “remorso do comprador”, com os golpistas que inicialmente acolheram a não conseguirem cumprir a segurança, o desenvolvimento ou o investimento prometido, e a perpetrarem violência contra civis, especialmente no Mali e no Burkina Faso, e a desculpa de culpar a França ou a CEDEAO a desgastar-se.
A segunda é que o desenvolvimento é essencial para mitigar o risco de golpe. A segurança humana consistente em regiões frágeis e inseguras é vital. O Fundo Africano para Apoiar as Transições Inclusivas (AFSIT), apoiado pelo PNUD e pela Comissão da União Africana, pode contribuir para colmatar as lacunas nas atuais respostas internacionais e regionais.
A terceira descoberta importante mostra que os países com um historial de envolvimento militar na vida política têm muito mais probabilidades de experienciar um padrão recorrente de golpes. Apesar das tentativas iniciais dos governantes militares do Burkina Faso, Mali e Níger para reforçar o seu governo, por exemplo, através da criação da AES como uma arquitetura de defesa coletiva e assistência mútua e da retirada da CEDEAO para desencorajar a pressão regional, existe um elevado risco de que o seu mandato termine como o dos seus antecessores. Um inquérito do Afrobarómetro de 2024[3] mostra ainda que, nos últimos 10 anos, os cidadãos em países com golpes de Estados habituaram-se ao envolvimento militar na política. Esta aceitação torna mais provável outro golpe em resposta à crescente frustração com as deficiências dos golpistas no poder.
A curto prazo, o resultado é também uma região cada vez mais governada por juntas militares que firmaram novas alianças externas, indicando uma mudança nas relações entre os países europeus e o Sahel. No Mali, Burkina Faso e Níger, os dirigentes da junta apelaram à retirada das tropas estrangeiras do seu território (incluindo forças francesas e norte-americanas e Capacetes Azuis da ONU) e procuraram apoio junto de fornecedores de segurança russos, iranianos e emirados, turcos e outros.
::: Iniciativas Múltiplas
Na última década, assistiu-se a uma proliferação de estratégias focadas na região do Sahel (21 – G5 Sahel; Acra I; Processo de Nouakchott; Atlântico Real do Rei Marroquino I), muitas vezes focadas no apoio aos atores estatais, que perderam toda a legitimidade e são vistos pelas suas populações como um problema fundamental. Isto foi agravado pela falta de sinergia, cooperação e coordenação entre parceiros internacionais, o que também prejudicou a eficácia. Apesar da natureza interligada dos desafios enfrentados pela região, as respostas têm sido predominantemente a nível nacional, não conseguindo abordar adequadamente as dimensões regionais e transnacionais da crise.
::: Segurança Humana
Por outras palavras, a segurança restrita não pode ser a única prioridade. Muitos cidadãos do Sahel veem os seus governos como parte do problema, o que torna essencial revitalizar o contrato social, respondendo às queixas subjacentes e oferecendo melhorias concretas nos meios de subsistência e na governação. Uma estratégia eficaz para estabilizar a região deve priorizar a resposta humanitária e investir em projetos de desenvolvimento subnacionais de pequena escala, especialmente nas áreas mais afetadas pela insegurança.
Essas abordagens já estão a ser implementadas. Por exemplo, em 2022, a Costa do Marfim lançou o seu “Programa Especial do Norte”[4], que combina uma presença tradicional de segurança com investimentos em infraestruturas públicas e programas sociais direcionados para jovens desempregados no Norte do país. Este é um exemplo que pode ser ampliado e replicado noutras regiões. Existe uma necessidade urgente de os Estados da África Ocidental e as suas instituições regionais garantirem a segurança humana, investindo em instituições viáveis e numa governação mais eficaz.
Esta também é uma das principais conclusões do Relatório Final recentemente publicado pelo Painel Independente de Alto Nível sobre Segurança e Desenvolvimento no Sahel – amplamente conhecido como o relatório Issufo[5].
Enfrentar a crise crescente no Sahel e suas consequências exige uma resposta política multifacetada. Isso inclui agir a nível regional e apoiar países como a Guiné-Bissau, que ainda não foram profundamente impactados, na prevenção do avanço do extremismo violento. A prevenção é sempre mais eficaz do que as respostas de segurança tradicionais, especialmente quando a radicalização já se enraizou. A abordagem securitária em vários países como o Burkina Faso deram resultados desastrosos. A experiência da União Europeia e Portugal ao apoiarem o Observatório da Paz com o IMVF e a Liga são uma boa prática que deve ser reforçada na Guiné-Bissau e aplicada nos países vizinhos.
Obrigado por me ouvirem no meu português. Por favor, vejam o relatório[6] está em português, francês e inglês – infelizmente ainda não em crioulo da Guiné-Bissau.
[1] https://www.visionofhumanity.org/wp-content/uploads/2025/03/Global-Terrorism-Index-2025.pdf
[2] https://observatoriodapaz.org/wp-content/uploads/2024/05/IMVF_LGDH_Estudo-REV-Guine-Bissau.pdf
[3] https://www.afrobarometer.org/publication/african-insights-2024-democracy-at-risk-the-peoples-perspective/
[4] https://adf-magazine.com/pt-pt/2023/08/investimentos-nos-distritos-do-norte-ajudam-costa-do-marfim-a-prevenir-ataques-extremistas/
[5] https://www.securitycouncilreport.org/atf/cf/%7B65BFCF9B-6D27-4E9C-8CD3-CF6E4FF96FF9%7D/S_2023_328.pdf